José Soares: “Cinema Paraíso”


Dr.José Soares_800x800José Soares

Advogado

Speaker “Rádio Volta” na Volta ao Alentejo e Volta a Portugal

Com a permissão de V. Exªs., caríssimos leitores do “Lidador Notícias” (que bela e talentosa iniciativa esta do nosso amigo Teixeira Correia, não acham?), vou hoje por esse Alentejo abaixo, até chegar a terras do sotavento algarvio. E sabem porquê? Quero-vos apresentar (para quem não conheça, é claro) uma notável criatura tavirense. Ou seja, uma notável criatura de uma notável terra, essa bela e antiga cidade de Tavira, com um rio único, que tem um nome da ponte para cima (Séqua) e outro da ponte para baixo (Gilão). Tal criatura dá pelo nome de Mário Martins, o Martins que está sempre onde há uma corrida de bicicletas nesse Algarve, o Martins que faz o som, que encaminha o trânsito, que arranja o espumante da vitória para o camisola amarela (e a aguardente de medronho para os amigos), que é pau para toda a obra, o Martins que nasceu numa casa de bicicletas, que é filho de ciclista e que é orgulhosamente da família de um outro Martins (este José), de Paderne, que foi o primeiro algarvio a vencer uma Volta a Portugal em bicicleta, correndo por uma equipa com um nome extraordinário (a Iluminante, casa de candeeiros à Avenida Almirante Reis, em Lisboa), o Martins dos carros velhos e em fase de pré-desconjuntamento, que o edil Macário, num dia de glória para o ciclismo tavirense, teve a boa ideia de meter no avião que foi ao norte do país buscar a equipa do Tavira que ganhou a Volta em 2008 em Felgueiras, o Martins da piada fácil e de um amor ao ciclismo maior do que o mundo.

Este Martins, que já não é um rapaz novo, confidenciou-me há dias em Alcoutim, com um sorriso nos lábios, que é o ciclismo que o mantém vivo. Desde que morreu a mãe, preferia ter ele próprio abandonado a vida, mas o ciclismo, felizmente, não deixa. Como eu já desconfiava, o Martins é um sentimental.

E sabem qual é a profissão desta grande figura? Segundo o próprio, “dá cinema”. Significa isto que calcorreia a serra algarvia com uma sala de cinema ambulante. Diz o Martins (que eu não vi nenhum) que dá filmes que só ele tem. Tenho uma enorme curiosidade em conhecer a colecção de fitas do amigo Martins, mas o que acho ainda mais extraordinário é que, em pleno século XXI, na era do youtube e da televisão por cabo com centenas de canais, ainda haja lugar para este Cinema Paraíso à moda da serra do Caldeirão ou Mu. Para quem gosta de cinema, para quem gosta deste país, ou para quem gosta de pessoas como o Martins, e mais ainda para quem gosta de tudo isso (do cinema, do país e do Martins), o mester do Martins é muito impressionante e muito… comovente. Faz-nos muita falta a todos entender que ainda existem terras em Portugal como aquelas que o Martins percorre, com tantos direitos como as outras terras, incluindo como é evidente o direito inalienável ao cinema. E se nessas terras é o Martins que dá o cinema, então quem manda neste país ou neste mundo deve imediatamente nomear o Martins para os Óscares, ou então dar-lhe uma camisola amarela.

No dia 27, a Volta ao Alentejo chega a Mértola e o Martins disse-me que ia lá estar, para ver chegar os corredores. Convidei-o para jantar, mas disse que não podia. Nessa noite, dá cinema. Em São João dos Caldeireiros. Se alguém estiver por perto, já sabe, vá ao cinema do Martins, que exibe fitas que só ele tem. E, já agora, façam-me um grande favor: dêem-lhe um abraço por mim.


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