Opinião (Os/as policias não choram!


O que espera de um/a Polícia?

António Castanho

Técnico Superior

Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna ​

Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde.

Espero que, caso necessite, me forneça uma resposta precoce e atempada à minha solicitação, seja para interromper uma situação de violência ou de perigo; que me atenda com profissionalismo, sensibilidade e empatia; que contribua para minimizar o trauma e previna a vitimização secundária; que contribua para o aumento da sua segurança e dos seus familiares; que conduza as investigações de forma eficaz para eventual acusação e condenação dos criminosos; que identifique e contenha os comportamentos dos/as autores/as de crimes entre outras.

Gostava que imaginasse por breves segundos que assiste a um acidente de trânsito com feridos e/ou mortos; que entra numa casa onde uma mulher, ensanguentada, está caída no solo e que num canto da casa se encontram duas crianças encolhidas, choram; que entra numa casa em que um idoso se encontra negligenciado, subnutrido e/ou com demência.

Para além disto imagine que por vezes o ofendem, o/a tentam agredir ou que o/a agridem no quando está a trabalhar, em Portugal morreram, desde 2009, no exercício das suas funções 9 profissionais da GNR e PSP, 4989 ficaram feridos, destes 50 necessitaram de internamento e 2360 de tratamento hospitalar.

Some a isto a alteração do ritmo circadiano, com turnos, alimentação e sono fora de horas. Imagine que estas situações ocorrem várias vezes durante um mês, um ano, dois anos até ao fim da sua vida profissional. Esta é a realidade dos polícias.

Mas quem são afinal estes/as profissionais que têm como função esta tarefa dura e nobre?

Tal como eu e você, são homens e mulheres provenientes da sociedade portuguesa, casados/as, solteiros/as, com ou sem filhos, com uma história de vida pessoal e profissional, eventualmente expostos/as a diversos cenários potencialmente traumáticos na vida pessoal e profissional e que quando não são devidamente tratados podem influenciar o seu desempenho. O contacto com o sofrimento, o desespero e a morte é assim uma das características da função policial e da atividade operacional das mulheres e homens das Forças de Segurança.

A população em geral desconhece o contexto e as condicionantes sociais da atividade policial. Desta forma são por vezes alvo de estereótipos, estigmas e julgamentos negativos.

Nesta atividade, distinta das restantes, os sujeitos deparam-se quase diariamente como uma quantidade de stressores que são únicos do desempenho da sua profissão. Para além dos stressores presentes noutras, os polícias são também expostos a situações críticas que os colocam em risco de vida tais como: intervenções em situações de violência doméstica, a intervenção em incidentes críticos muitos deles com vítimas graves, lidar com pessoas traumatizadas, a exposição por contacto direto ou indireto a doenças infectocontagiosas (intervenção com detidos ou suspeitos).

Por outro lado, desempenham de forma contínua e sistemática tarefas e missões de elevada intensidade emocional, muitas das quais envolvem ameaças diretas à sua integridade física e à própria vida que frequentemente são localizadas no tempo e no espaço.

No caso das equipas especializadas em violência doméstica desenvolvem um trabalho longitudinal que se pode arrastar por meses (com reavaliações de risco, planos de segurança etc..), envolvendo um contacto com maior número de pessoas próximas da vítima e do agressor, maior possibilidade de atrito com vítimas, testemunhas e agressor/a, maior probabilidade de envolvimento, maior probabilidade de reincidências (Agressões graves ou morte).

Têm também maior probabilidade de contacto continuo com crianças, pessoas com deficiência e idosos no agregado, vítimas com quadros psicopatológicos. (Depressão, Ansiedade, Perturbação de Stress-pós-Traumático) e consequentemente maior exposição ao trauma e ao trauma vicariante com possibilidade de projeção, transferência/contransferência emocional.

Segundo McCraty (1999) os profissionais de polícia lidam com a violência numa base diária e são expostos a um nível de stress muito acima do cidadão normal. Esta profissão, onde o que separa a vida da morte é por vezes apenas uma linha ténue, caracteriza-se como poucas outras profissões por ser um permanente desafio às condições psicológicas e físicas destes profissionais.

Os estudos indicam que os níveis de stress (agudo e crónico) sentidos pelos profissionais de polícia podem originar efeitos físicos e psicológicos adversos e indesejáveis que podem afetar as suas vidas pessoais e profissionais. Assim o Stress causado por todos estes fatores tem impacto nos sujeitos, nas suas famílias, nas instituições e na sociedade em geral.

Estes episódios são sempre revestidos de grande intensidade emocional e configuram situações de Stress agudo e a complexa teia de fatores de risco coloca estes sujeitos ao alcance de uma grande variedade de efeitos negativos, de ordem fisiológica, saúde mental, comportamental e de relações interpessoais.

Embora os elementos policiais não vivam situações traumáticas, de medo ou de impotência num ritmo diário, estas são sentidas e acumuladas ao longo de toda a carreira (Violanti, 1996, in Garcia, Gu & Nesbary, 2004). Esta exposição contínua a acontecimentos traumáticos fragiliza emocional e psicologicamente os elementos policiais e limita substancialmente as suas estratégias de coping conduzindo eventualmente a situações de Stress crónico. Em comparação com soldados que experienciam situações de combate numa missão de seis meses a um ano, os elementos policiais vivem in loco, combates de rua ao longo de muitos anos, em que o inimigo não é sempre identificável (Sewell, 1998). Estes episódios, são muitas vezes remetidos para o esquecimento e considerados “ossos do ofício”.

Em resultado desta pressão permanente estes profissionais são mais suscetíveis a desenvolver questões de ordem psicológica onde sobressaem elevados níveis de depressão e ansiedade, perturbação de Stress pós-traumático, ideações suicidas, tentativas de suicídio e suicídios consumados (Fisher, 2003). Segundo o estudo “Prevenção do suicídio e comportamentos autolesivos nas forças de segurança”, encomendado pelo Ministério da Administração Interna (MAI) suicidaram-se entre 2007 e 2015, 89 elementos da PSP e da GNR, ou seja, uma média de 11 profissionais por ano.

A forma como ocorrem e são processados os acontecimentos determinam as suas consequências em termos individuais, quer sejam fisicamente quer psiquicamente variando desde: problemas diários de resolução imediata com efeitos considerados benignos; situações pontuais indutoras de Stress as quais provocam um desgaste psicológico delimitado até se resolver o problema; situações indutoras de Stress crónico cujo desgaste psicológico se prolonga no tempo, até a situação ficar resolvida.

O stress profissional sentido por estes homens e mulheres não tem efeitos apenas individuais e reflete-se ao nível do comportamento e das relações interpessoais essencialmente no isolamento social, conflitos interpessoais, relações disfuncionais e divórcio. Ao nível institucional estes efeitos são notados essencialmente na taxa de absentismo e faltas por doença.

Fisher, (2003) refere que estes efeitos, notados por vezes no ambiente laboral, refletem-se no baixo moral, baixo nível de satisfação, baixa performance, aumento de queixas por questões de atendimento e problemas relacionais com o público. Segundo o mesmo autor, outros fatores causadores de Stress são, os relacionados com as relações interpessoais e organizacionais dentro da Instituição sendo os stressores sistémicos mais comuns as horas extraordinárias, o excesso de trabalho, os turnos de serviço, os meios humanos e materiais escassos.

Em Portugal ainda se cultiva a vergonha do homem que chora e nas policias este rótulo soma-se com um ainda mais forte a dicotomia homem ou mulher/polícia, que condiciona sobremaneira o comportamento dos sujeitos conferindo-lhes uma aura imaginária de falsos heróis sem sentimentos e supostamente inquebráveis perante qualquer adversidade. O uso do uniforme em alguns destes profissionais, projeta nestes uma grande carga por parte de franjas da população, que reagem com hostilidade à farda, alheando-se do indivíduo que a enverga.

Em resultado de todos estes fatores esta classe profissional forma uma subcultura muito própria em que apenas algumas das experiências vividas pelos elementos, são partilhadas com os seus colegas e apenas com estes pois mais ninguém domina o “código emocional”.

Nalguns países, as Instituições Policiais têm desenvolvido, programas de intervenção e de aconselhamento psicológico para que os efeitos destes stressores sejam manuseados pelos profissionais com clareza e objectividade, de forma a minorar o seu impacto.

Um exemplo claro é a intervenção precoce após uma situação traumática com recurso a terapias recomendadas nas Guidelines da Organização Mundial de Saúde (2013) para o tratamento do trauma com recurso à terapia cognitivo-comportamental e a terapia EMDR.  Ver https://www.policeone.com/health-fitness/articles/220251006-How-EMDR-can-help-police-officers-exposed-to-graphic-images-and-incidents/

Volto ao principio e coloco a seguinte questão – É exigível a um profissional com níveis de pressão desta natureza que desempenhe a sua profissão sem falhar? Que tenha sensibilidade e empatia? Que se dedique sem reservas? Claro que sim! Mas têm de lhe ser dadas condições para o fazer!

Se os/as profissionais não se sentirem confiantes no desempenho da sua atividade e não existir um sentimento do controlo da situação podem percecionar muitas das ocorrências como ameaçadoras da sua segurança e da própria vida. Isto pode significar também o aumento da ansiedade e o desenvolvimento de sintomas associados ao Stress patológico.

Para os/as profissionais de polícia a perceção de controlo é um elemento necessário e indispensável para lidar com os acontecimentos do dia-a-dia no decorrer da atividade.

Se existir a perceção de que a formação para o desempenho da função é a apropriada, de que o equipamento disponibilizado é o adequado, de que existe apoio por parte da estrutura hierárquica e intervenção psicológica adequada e atempada, provavelmente a perceção de Stress relativamente a situações ameaçadoras tenderá a diminuir e diminuirão com toda a certeza os fatores de Stress.

Termino dizendo que os/as polícias têm, entre muitas outras, a nobre função de se assegurar que nos desloquemos para o trabalho em segurança enquanto os seus filhos estão na escola também em segurança.

Se não lhes fornecermos as condições ótimas para o desempenho da sua profissão nunca poderemos exigir um serviço da melhor qualidade a que todos temos direito enquanto cidadãos e que eles e elas nos têm disponibilizado com muito pouco em troca!

Os/As Polícias choram e devem poder chorar com conforto e em segurança!


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