Quinta-feira, Outubro 22, 2026

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Aeroporto de Beja e não era preciso petição

Muito se tem falado nas últimas semanas sobre o aeroporto de Beja, como alternativa ao congestionamento do aeroporto de Lisboa, tendo como referência a posição contra o aeroporto de Montijo.

Alfredo Flamino Barroso

Presidente da Câmara de Redondo (janeiro de 1983 e outubro de 2013. Foi Presidente da ADRAL e da AMDE.

Diretor da Volta ao Alentejo em Bicicleta

Não pretendo, até por não ser especialista na área em causa, alimentar discussões estéreis, mas não posso deixar de expor o que pensava e penso sobre toda esta temática do futuro do aeroporto de Beja, dando a conhecer o que se passou no final da década de 90. E cada um que tire as conclusões que entender, certo de que perdemos uma oportunidade e continuamos a ser do tal interior desertificado e pouco desenvolvido.

Seja qual for a solução, tem de se equacionar sempre a questão da sustentabilidade de qualquer das alternativas sob pena de ser um remendo que não tem base de continuidade e benefícios para as pessoas e as regiões. Como presidente da ADRAL, em 1998 e 1999 participei num grupo de trabalho sobre a viabilidade e sustentabilidade do aeroporto de Beja, com base numa proposta dum grupo inglês – Wiggins Group – que estava disponível para fazer todo o investimento em Beja tendo como contrapartida um prazo de concessão de exploração do mesmo. Claro que nesta base não havia investimento público direto, assegurando o referido grupo um sindicato bancário como garantia.

A proposta apresentada ao governo português de então – da qual tenho um exemplar – apontava a sustentabilidade do aeroporto de Beja com base em três vertentes: carga, manutenção e passageiros, sendo esta última a menos relevante (mas claro que estávamos em 1998 sem congestionamentos em Lisboa na altura) mas prevendo potenciar o turismo resultante do espelho de água de Alqueva e as potencialidades turísticas do Alentejo, hoje tão reconhecidas e valorizadas. De qualquer modo a principal aposta dos investidores era carga e manutenção. Carga, pensando no que Alqueva potenciava em relação aos produtos da agricultura, manutenção pensando na logística para tal e incluindo uma área industrial entre o aeroporto e a localidade de S. Brissos para instalação de empresas especializadas.

É curioso notar que atualmente se fala muito na diversidade de produtos que a agricultura pode produzir e como seria se houvesse meios de transportes adequados para o norte e centro da Europa, bem como seria o tecido empresarial da região com a introdução da componente de manutenção. Para mais é de referir que a manutenção libertava espaço em Lisboa, criava postos de trabalho especializados em Beja e permitia ter um cluster aeronáutico muito mais vasto e importante no Alentejo.

Acresce a proximidade do Porto de Sines, como porta de entrada para a europa e a possibilidade de viabilizar uma unidade de Teleport para estabelecer a base de uma rede de comunicações entre o continente americano e a europa. Porto de Sines que tem hoje mais importância e viabilidade do que tinha na década de 90, valorizando assim o funcionamento civil do aeroporto de Beja.

Tive ocasião de visitar, integrado numa delegação oficial, o aeroporto de Manston, em Inglaterra, resultado dum contrato entre o governo inglês e o Wiggins Group, que permitiu transformar a ex-base militar num aeroporto de uso civil e em que a principal atividade se centrava na carga de produtos de África para o Reino Unido e permitia a manutenção de média e longa duração. Visitar e ver grandes aviões de carga a aterrar com produtos frescos de áfrica para o reino unido.

Para melhor se entender o alcance da proposta, os valores previstos no tempo para as diversas fases do investimento, a preços de 1999 superava os 100 milhões de euros repartido por 5 fases: 1999/2000 – 2001/2003 – 2004/2006 – 2007/2008 e 2009/2010, contemplando para além do que é inerente ao funcionamento dum aeroporto, uma unidade hoteleira e uma zona industrial infraestruturada bem como acessibilidades diretas.

Esta proposta foi apresentada ao governo português em 1999, não teve acolhimento tanto quanto fui informado na altura e também não foi bem aceite por alguns agentes do distrito com responsabilidades, que apostavam na manutenção e renovação dos aviões russos Antonov, por via dum estudo então por eles encomendado, pelo que o grupo desistiu do investimento em Beja e apostou noutro em Itália, também uma ex-base militar.

Não querendo especular penso que se este projeto tem avançado, questões como ligação rodoviária de Beja à auto estrada seria uma realidade, a ferrovia teria sido intervencionada por força das sinergias resultantes e Beja seria mais um polo do cluster aeronáutico do Alentejo, para além de Évora e Ponte de Sor. Era o Alentejo no seu todo em vez de um Alentejo dividido que, comprovadamente, não contribui para um desenvolvimento harmonioso e sustentável do mesmo.

Se tudo isto tem avançado, Beja poderia ter, hoje, a componente de passageiros assegurada mesmo não sendo a componente principal da sustentabilidade, independentemente da solução Montijo que não era sequer falada na altura. E não era preciso ser contra nem sequer haver qualquer petição!

Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Lidador Notícias.

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