Sábado, Abril 11, 2026

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ENTRE O QUE SE EXIGE E O QUE SE DEVE DAR

Há um tom recorrente nas declarações do Ministro da Administração Interna (MAI), “urgência”. Urgência em travar a tragédia da sinistralidade rodoviária, em antecipar incêndios antes de se tornarem tragédias, em conter a Violência Doméstica (VD) que persiste como ferida aberta na sociedade portuguesa, urgência essa, aliás, que é compreensível, governa-se sob pressão, sob escrutínio e, sobretudo, sob a expectativa de resultados imediatos, sendo que o problema começa quando a urgência se transforma num monólogo, porque o que se pede às Forças de Segurança (FS) não encontra, do outro lado da equação, o que lhes é devido.

Rogério Copeto

Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna

Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda

O MAI tem sido claro, quer mais presença no terreno, maior fiscalização, intervenção precoce, proximidade às vítimas, capacidade de prevenção e resposta, pedindo à Guarda Nacional Republicana (GNR) e à Polícia de Segurança Pública (PSP) que estejam em todo o lado, nas estradas, nas matas, nas casas onde o silêncio esconde a violência, pedindo-se mais eficácia, mais rapidez, mais visibilidade, e, implicitamente, mais sacrifício.

Mas a pergunta que importa fazer, e que raramente sobe ao púlpito político, é simples: com quê?

A sinistralidade rodoviária não se combate apenas com operações STOP mais frequentes ou com maior número de radares, combate-se com meios tecnológicos atualizados, viaturas em condições, sistemas de informação eficazes e, não menos importante, com agentes da PSP e militares da GNR, que não estejam exaustos ao fim de turnos prolongados, porque quando se pede mais fiscalização, pede-se também mais efetivo, melhor equipado e com condições para atuar sem desgaste acumulado, pelo que caso contrário, corre-se o risco de transformar o zelo em rotina mecânica, e a rotina em erro.

No caso dos incêndios, o discurso da prevenção é, finalmente, dominante, ainda bem, mas prevenir implica presença contínua no território, conhecimento fino das comunidades, articulação com autarquias e capacidade operacional, enfrentando os Comandos Territoriais da GNR falta de efetivos, envelhecimento do quadro e dispersão operacional, pelo que pedir antecipação sem reforçar recursos é, no fundo, pedir que se adivinhe o futuro com ferramentas do passado.

E depois há a VD, talvez o mais complexo dos três fenómenos, por isso tem o MAI insistido na necessidade de intervenção célere, acompanhamento das vítimas e articulação com a rede de apoio, mas quem está na linha da frente sabe que este é um campo onde a sensibilidade humana se cruza com a exigência técnica, não bastando mandar ir, é preciso saber ir, saber ouvir, saber agir, e isso exige formação contínua, equipas especializadas, tempo para acompanhamento e, sobretudo, estabilidade emocional dos próprios agentes da PSP e militares da GNR, cuja saúde mental não pode ser descurada.

É neste ponto que o contraponto se torna inevitável, onde as associações da GNR e os sindicatos da PSP têm sido persistentes, e, dir-se-ia, coerentes, nas suas reivindicações, na valorização salarial, revisão das carreiras e das pensões, melhores condições de trabalho, reforço de efetivos, investimento em equipamentos e formação, não se tratando de caprichos corporativos, como por vezes se sugere de forma simplista, mas sim de condições mínimas para que o que é exigido possa, de facto, ser cumprido.

Um agente da PSP ou um militar da GNR mal pago não é necessariamente um mau profissional, sendo o aumento da proatividade que as FS apresentaram no ano passado e espelhado no RASI 2025 prova disso mesmo, mas é, mais facilmente, um profissional desmotivado, um efetivo insuficiente não implica automaticamente falhas, mas aumenta exponencialmente o risco de erro, de desgaste, de ausência onde devia haver presença e um sistema sem investimento contínuo não colapsa de um dia para o outro, mas degrada-se lentamente, até que a falha se torna inevitável.

O equilíbrio entre exigência e suporte é, portanto, a chave, mas não se pode fazer esse equilíbrio apenas com discursos de circunstância ou anúncios pontuais, mas sim com política pública consistente, com planeamento a médio prazo e com uma escuta ativa e real, não performativa, das estruturas representativas das FS.

É legítimo que o MAI exija resultados, sendo essa, aliás, a sua obrigação, mas é igualmente sua responsabilidade garantir que quem está no terreno tem condições para responder a essas exigências, porque caso contrário, instala-se um desfasamento perigoso entre o discurso político e a realidade operacional, e esse desfasamento paga-se caro, muitas vezes em vidas.

Há também uma dimensão simbólica que não deve ser ignorada, porque quando o poder político reconhece, de forma concreta, o valor das FS, não apenas com palavras, mas com medidas tangíveis, reforça-se a confiança interna e externa, sentindo-se os agentes da PSP e os militares da GNR respeitados, e os cidadãos percebem que há um investimento sério na sua proteção, sendo um círculo virtuoso que começa, inevitavelmente, na decisão política.

Portugal não precisa apenas de mais operações, mais patrulhas ou mais relatórios, precisa de um modelo de segurança que seja sustentável, para quem protege e para quem é protegido, implicando abandonar a lógica do “pedir mais” sem perguntar “o que falta”.

No fim, a equação é simples, embora raramente tratada como tal, não há mais segurança sem mais condições, não há mais prevenção sem mais investimento e não há mais exigência legítima sem reciprocidade, estando talvez aí o verdadeiro desafio do MAI, não apenas exigir melhor, mas garantir melhor, porque, em matéria de segurança, pedir é fácil, sustentar é que faz a diferença.

Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.

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