Os sentimentos são transversais aos venezuelanos que vivem na região: deixaram o país por falta de liberdade, as péssimas condições de vida, acreditam no futuro da Venezuela e das suas famílias e todos querem continuar a viver em Portugal.
Segundo dados apurados pelo Lidador Notícias (LN), a comunidade venezuelana no distrito de Beja ultrapassa uma centena e meia de cidadãos, 80 dos quais no concelho de Ferreira do Alentejo e mais de duas dezenas nos arredores da cidade de Beja.
Desde a chegada da frota dos Estados Unidos da América (EUA) às águas do Caribe que perceberam que algo estava para acontecer e a operação americana não foi uma surpresa. Era somente uma questão de dias para Nicolas Maduro fosse obrigado a abandonar o poder.
Albersy Perez, tem 39 anos, nasceu na pequena aldeia de Rio Tocuyo, em Carora, e há 7 anos que chegou a Portugal e a Ferreira do Alentejo. Veio sozinho, dois anos depois chegaram a mulher e os dois filhos menores e mais tarde a filha mais velha (foto um). Trabalha na mina de Neves-Corvo, em Castro Verde, depois de ter trabalhado na agricultura e há 4 anos que é voluntário no Corpo de Bombeiros de Ferreira do Alentejo (foto dois).
Conhece o regime chavista por dentro, já que durante 15 anos foi polícia na Venezuela, mas o que “o que nos davam não era o que desejava para o meu país, mas, a parte social da minha família em particular dos meus filhos foi o que mais pesou para vir em busca de uma nova vida. Escolhemos Ferreira do Alentejo para viver”, contou emocionado ao LN.
O coração da família Perez ficou mais apertado quando souberam da Operação Resolução Absoluta, já que o sogro de Albersy vive no interior do Forte Tiuna, sede do Ministério da Defesa e o Estado-Maior das Forças Armadas, que alberga também mais de 10 mil habitações para civis e militares, local onde o presidente Maduro foi capturado.
“É uma zona residencial de civis que funcionava como escudo humano do regime. O meu sogro quando ouviu o primeiro rebentamento saiu de casa com a mulher e a filha e no carro de um vizinho foram para um bairro fora do Forte, onde se sentiam em segurança”, concluiu.
Confidenciando que este domingo foi dia de festa entre os venezuelanos em Ferreira do Alentejo, justifica que “ao princípio foi uma angústia por causa da família, pais, irmão, sogros e cunhada, mas depois de sabermos o resultado da operação foram momentos de felicidades”, defendendo agora esperar “pela reação do Governo e perceber o seu rumo de ação”, rematou.
Há três anos em Beja, Adriana Ciccaglione, 50 anos, é jornalista (foto três), profissão que exerceu durante mais de 20 anos, mas a censura e os constrangimentos à liberdade de imprensa, levaram a que abandonasse a Venezuela rumo à cidade Pax-Júlia onde é professora de espanhol. Em contato diário com os colegas venezuelanos, Adriana refere que “os EUA estavam há três meses à procura do paradeiro de Maduro, pela forma cirúrgica como a operação decorreu houve alguém que o atraiçoou-o. Não foi preso um presidente, foi preso um criminoso”, sustentou.
“Agora aguardarmos com muita expetativa qual vai ser o rumo do país. Este domingo a Conatel, a censura do Governo, fechou três canais de televisão. Esperamos que o presidente eleito pelo Povo em 2024, Edmundo Gonzalez, assuma o poder, mas, as palavras de Trump de que a transição não é como ele, não nos deixou muito agradados”, concluiu.
Assumindo que 1998 votou em Hugo Chávez, mas diz que foi enganado como cidadão e como empresário, e há 25 anos que Edgar Rincon Montero (foto quatro), passou a ser contra o regime, uma vez que perdeu a empresa de transportes de que era proprietário, tendo sido obrigado a deixar o país rumo ao Perú. Nasceu em Cabimas, na fronteira com a Colômbia e tem 57 anos. Há quatro que chegou a Beja com a filha, o genro, os dois netos e um primo do genro. Trabalha como tratorista numa empresa ligada à agricultura e o facto da ex-mulher ser filha de portugueses, pesou na decisão final.
“Ao princípio fiquei preocupado e nervoso por causa da família que vive lá, mas agora estou mais descansado e contente. Percebe-se que os EUA, através de Marco Rubio, vão administrar o país nos próximos anos, mas acreditamos na reconstrução da Venezuela. Foram os americanos que criaram o império do petróleo, mas Hugo Chávez roubou os gringos”, diz Edgar.
Face aos laços familiares com o genro de Edgar, Armando Mudarain (à esquerda na foto cinco), de 29 anos, é o sexto elemento do núcleo venezuelano que vive no Monte do Casteleiro, nos arredores de Beja. Nascido em Puerto de la Cruz, na zona oriental da Venezuela, mostrava as cinzas da grande fogueira que o grupo fez para celebrar a operação americana. “Ao princípio fiquei preocupado por causa da minha mãe e do meu irmão, mas estou contentíssimo por saber que estão bem. Vivem numa zona longe do conflito”, rematou.
Edgar e Armando partilham das mesmas ideias e ideais, em que o futuro passa por ficar em Beja, sustentando que são venezuelanos, mas não são faciosos. Ambos querem paz, trabalho e a reconstrução de uma Venezuela próspera.
Teixeira Correia
(jornalista)


