Quarta-feira, Abril 1, 2026

InícioOpiniãoMAIS RADARES, MENOS MORTES E SEM ESTRATÉGIA

MAIS RADARES, MENOS MORTES E SEM ESTRATÉGIA

Sobre o tema da sinistralidade rodoviária, resulta da semana passada, a intenção do governo em aumentar os números de radares, que falta uma estratégia nacional de segurança rodoviária e que na União Europeia, no ano de 2025, houve uma redução de 3% das mortes nas estradas a 30 dias, comparativamente com 2024, sendo a média europeia de 43 mortes por milhão de habitantes e a de Portugal, aproxima-se das 60, ocupando a quinta posição a contar do fim.

Rogério Copeto

Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna

Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda

No que respeita ao aumento do número de radares, parece haver uma ideia confortável, quase automática, de que mais controlo significa mais segurança, mais radares, menos velocidade, menos velocidade, menos mortes, cuja a equação parece simples, mas a realidade portuguesa insiste em contrariar essa lógica linear.

A recente decisão de reforçar o número de radares de velocidade média, com a instalação prevista de mais 12 pontos de controlo nas estradas nacionais, surge como resposta direta ao problema, tratando-se de uma tecnologia que não mede um instante, mas um comportamento prolongado, a velocidade média entre dois pontos, parecendo que uma vigilância contínua elimina o velho hábito de travar apenas junto ao radar e voltar a acelerar logo depois.

Ao mesmo tempo que o governo aposta no reforço dos radares, vozes do setor da segurança rodoviária alertam para um problema mais profundo, porque Portugal continua sem uma estratégia nacional de segurança rodoviária, eficaz e plenamente implementada, sendo a crítica clara, é preciso olhar “além dos radares” e avançar com uma abordagem integrada.

Entretanto a Europa anuncia uma redução de 3% nas mortes nas estradas a menos de 30 dias, permanecendo por resolver o essencial, porque o sistema continua fragmentado, reativo, incapaz de antecipar, e, sobretudo, continua a ignorar ou a subvalorizar, aquilo que não se vê de imediato, as vítimas a mais de 30 dias.

Essas vítimas são o ponto cego da política rodoviária, não entram nos comunicados iniciais, não alimentam a perceção pública de urgência, mas existem e acumulam-se, sendo o resultado de acidentes graves, de respostas tardias, de sistemas que funcionam, mas não o suficiente e são a prova de que a violência rodoviária não termina no asfalto.

A insistência nos radares, embora legítima, corre o risco de simplificar um problema estrutural e como lembram os próprios responsáveis, o excesso de velocidade é apenas um dos fatores, ainda que relevante, responsável por uma parte significativa das mortes, mas há outros, o álcool, a distração, o estado das infraestruturas, a formação dos condutores, a eficácia do socorro, etc, pelo que reduzir a resposta a dispositivos de controlo é, no fundo, tratar o sintoma e não a doença.

E aqui reside a questão central, Portugal tem medidas, mas falta-lhe uma visão, onde uma estratégia nacional de segurança rodoviária, prometida e sucessivamente adiada, continua a ser mais um anúncio do que uma realidade consolidada, porque um plano que deveria estruturar prioridades, coordenar intervenções e avaliar resultados, tarda em materializar-se de forma consistente.

Entretanto, os números seguem o seu curso ambíguo, pequenas descidas, aumentos pontuais, estagnação, um cenário que não permite triunfalismos, porque cada variação percentual esconde histórias concretas e, muitas vezes, prolongadas no tempo, sendo aqui que regressamos às vítimas a mais de 30 dias.

Se os radares procuram controlar o momento, estas vítimas lembram-nos o processo, o acidente não é um evento isolado, é o início de uma cadeia de consequências e entre o impacto e o desfecho, há decisões, recursos, tempos de resposta, há margem para salvar ou perder vidas, pelo que ignorar esta dimensão é comprometer a leitura do problema, e mais grave ainda, comprometer a eficácia das soluções.

O debate atual revela, por isso, uma tensão evidente, entre tecnologia e estratégia, entre controlo e prevenção, entre reação e antecipação, e Portugal parece ainda preso a uma lógica de curto prazo, onde cada medida surge isolada, sem integração num quadro mais amplo.

Isso não significa que os radares sejam irrelevantes, pelo contrário, são uma ferramenta importante, comprovadamente eficaz na redução de comportamentos de risco, mas não são, nem podem ser, a resposta central.

A segurança rodoviária exige mais, exige educação contínua, desde a escola até à formação de condutores, exige infraestruturas desenhadas para reduzir o erro humano, exige fiscalização, sim, mas também acompanhamento, avaliação e correção de políticas e exige, sobretudo, uma visão que coloque a vida no centro, não como meta estatística, mas como prioridade concreta, exigindo ainda coragem política para assumir que o problema não se resolve com medidas avulsas.

Portugal está, hoje, perante um dilema silencioso, pode continuar a investir em instrumentos de controlo, acumulando soluções parciais, ou pode finalmente estruturar uma resposta integrada, alinhada com as melhores práticas europeias, sendo que a diferença entre uma e outra opção mede-se, inevitavelmente, em vidas.

Não apenas nas que são contadas no imediato, mas também nas que surgem dias depois, aquelas que transformam uma estatística provisória numa realidade definitiva, porque, no fim, o verdadeiro indicador não está no número de radares instalados, nem na percentagem de redução anunciada, está na capacidade de evitar que, 30 dias depois, ainda haja mais nomes a acrescentar à lista.

Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Recentes