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Shamonda: Vírus preocupa produtores pecuários do Alentejo, mas, é inofensivo para a saúde pública.

Numa informação técnica emitida no passado dia 13 de outubro, a Direção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV) deu a conhecer que em Portugal existiam seis explorações, três das quais em concelhos do Alentejo, Crato, Évora e Odemira, onde foi detetado o vírus Shamonda (SHAV), sendo que os bovinos são considerados a espécie mais suscetível ao desenvolvimento de doença clínica.

Junto da ACOS-Associação de Agricultores do Sul, foi possível apurar que no Baixo Alentejo e Alentejo Litoral o efetivo de bovinos é de 300 mil animais, enquanto que na globalidade dos 47 concelhos do Alentejo esse número ronda os 550 mil bovinos.

Miguel Madeira, veterinário da ACOS-Associação de Agricultores do Sul

Licenciado em Medicina Veterinária pela Universidade de Lisboa, chefia o departamento da Sanidade Animal da ACOS e é o coordenador do Agrupamento de Defesa Sanitária de Beja sedeado naquela associação e é tido como um dos homens que melhor conhece a realidade animal no Alentejo.

Ao Lidador Notícias, Miguel Madeira, começou por referir que o Shamonda “é um vírus do mesmo tipo da língua azul, transmitido por um mosquito e não de animal para animal”, assegurando que os “há efetivos de leite afetados e uma ou outra vaca de carne, mas, o impacto não é, por enquanto, significativo. Basta haver um animal positivo para se considerar que a exploração está afetada”, resumiu.

Sobre a situação na região o veterinário justifica que “do que tenho visto no campo, com os bovinos de carne, a situação não é grave. Na ACOS não temos reporte de animais afetados, o que não significa que o vírus não circule, mas reafirmo não temos casos reportados”, aclarando que o que acontece nas vacarias de leite “é que os animais ficam febris, a produção baixa e é mais fácil de detetar”, concluiu.

Para procurar sossegar e controlar uma eventual propagação do vírus, Miguel Madeira revelou que “divulgamos a informação junto dos produtores, em particular dos associados e estamos atentos para perceber a evolução da situação”, justificando que a única coisa que pode travar a disseminação do Shamonda “é o frio, que deixa o mosquito inativo. Para o inseto deixar de circular tem que existir, pelo menos, um período de 10 dias com temperaturas mínimas inferiores a 10 graus”, rematando que apesar de infetar os ovinos e caprinos os animais são assintomáticos.

David Catita, produtor de Limousine, em Odemira.

Com uma exploração com cerca de uma centena de bovinos da raça Limousine, no concelho de Odemira, um dos sinalizados pela DGAV onde foi detetado o vírus Shamonda, David Catita lembra que “a doença não é de analise obrigatória, por isso, para o vírus ser detetado é porque houve uma quebra de produtividade”, defendendo que nas explorações onde foi detetada a doença “ou foram feitas análises direcionadas, ou, desconfiarem que a mesma existia no local”, concluiu.

“No meu caso nunca fiz análises. Os meus bovinos não apresentam sintomatologia, que se reflete em animais mais tristes, abortos tardios e más formações, não tive nada disso na exploração. Estamos sempre a fazer desinfeções por causa da língua azul, pode ser um fator que tem mantido a exploração inócua”, justificou o produtor.

Sobre informações procedentes da DGAV ou Ministério da Agricultura sobre o vírus e procedimentos a tomar David Catita não poupou nas palavras: “Nada, rigorosamente nada. O que sei é o que tem sido da comunicação. Estou curioso para saber como o vírus afetou algumas explorações”, rematou.

António João Veríssimo, produtor de raças cruzadas, em Beja, Castro Verde e Vidigueira

Falar do nome Veríssimo é falar de uma família de três gerações que há muitas décadas se dedicada à criação de bovinos, tendo nesta altura quatro explorações em Trindade e Neves, no concelho de Beja, São Marcos da Ataboeira, em Castro Verde e Vila Alva, em Vidigueira. António João Veríssimo tem um efetivo que ronda as 750 cabeças de gado, cruzadas de Limousine com Charolês.

Apesar das notícias que correm, o produtor confessa-se um “homem descansado” tendo em conta as explicações e conselhos transmitidos pelo seu veterinário que lhe disse que “o vírus não causará grande dano nos bovinos, uma vez que o animal vai imunizar-se por si. Não causa mortalidade nos animais,”, concluiu. Veríssimo garantiu que da parte da DGAV ou Ministério da Agricultura “não há qualquer informação sobre a doença ou procedimentos a tomar nas explorações. Estamos a vigiar e monitorizar as explorações e esperando que a temperatura baixe e chova para que o mosquito deixe de estar ativo”, sustentou.

Tratando-se de um produtor de bovinos de carne, António João Veríssimo considera importante descansar os consumidores: “o Shamonda não tem qualquer problema para a saúde publica. Não se transmite por comer carne de bovino. É importante que as instituições responsáveis pelo sector (leia-se DGAV e Ministério) venham a público esclarecer e descansar os consumidores, que somos todos”, rematou.

João Ciríaco, Engenheiro Agrícola, do produtor da raça Red Aberdeen-Angus, em Beja

Reinaldo Engrossa maior produtor europeu, com uma vocação comercial direcionada para a exportação. A Herdade da Namorada, situada no concelho de Beja, perto da Base Aérea 11, tem 350 fêmeas Red de linhagem pura de Aberdeen-Angus, uma raça produtora de carne nobre, que já é comercializada em grandes superfícies em Portugal.

João Ciríaco, é o engenheiro agrícola responsável pela exploração pecuária, alinha pelo diapasão dos restantes produtores sustentando que o vírus “provoca febre nos animais, quebras de produção de leite nas vacas leiteiras e nos bovinos de carne estes perdem algum peso”, acrescentando que pouco mais há a fazer do que “esperar que com a chegada do inverno as temperaturas baixem e possam ocorrer chuvadas e a circulação do vírus fique mais controlada”, concluiu.

O Shamonda é muito recente há ainda pouca informação, mas, “há dois dados positivos. Ao contrário da brucelose em que temos que abater os efetivos, também não é perigo para a saúde pública e a carne pode ser consumida”, justificou.

Na Herdade da Namorada, quase todos os dias, os animais são todos desinfetados e as instalações higienizadas, para prevenir o aparecimento do mosquito que transmite o vírus.

DGAV e DGS acompanham a evolução do vírus Shamonda

A Direção-Geral da Saúde considera muito baixo o risco para a saúde humana no país, após ser identificada uma primeira infeção humana em França. “Em Portugal, não foram notificados à DGS [Direção-Geral da Saúde] casos suspeitos ou confirmados de infeção humana pelo vírus Shamonda. O vírus foi, contudo, detetado em explorações pecuárias nacionais, à semelhança do que tem ocorrido noutros países europeus desde o verão de 2026”, refere a Direção-Geral de Saúde.

Por seu turno a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) justificou que lhe foram comunicados resultados laboratoriais positivos por PCR para pesquisa do vírus Shamonda em bovinos de explorações nos concelhos de Odemira, Loures, Crato e Montijo e identificados resultados serológicos positivos em bovinos em Vimioso e Évora. Estes resultados devem ser interpretados com prudência, atendendo à possibilidade de reações cruzadas com outros vírus próximos, não permitindo, por si só, confirmar uma infeção específica pelo vírus Shamonda. A DGAV assegura a vigilância nos animais e partilha informação com a DGS, responsável pela avaliação das possíveis implicações para a saúde humana.

Teixeira Correia

(jornaista)

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