Há dias em que o país se veste de cerimónia e sobe ao palco para se ouvir a si próprio, sendo que nessas ocasiões, as palavras são cuidadosamente escolhidas, afinadas como instrumentos de uma orquestra que não admite desafinações, falando-se de excelência, de missão, de entrega, de homens e mulheres como pilares silenciosos de uma ordem que parece firme, quase inabalável. E, por momentos, acredita-se.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
Mas depois desce-se do palco.
E é nesse instante, quando a última salva de palmas se dissolve no ar, que começa a verdadeira narrativa, aquela que não cabe nos discursos, que não se imprime nos programas oficiais, que não se transmite em direto, a do quotidiano e a que não tem adjetivos, apenas factos.
Existe, entre o que se diz e o que se vive, um intervalo, não é um vazio, é um espaço cheio de cansaço, de improviso, de resistência e onde a retórica encontra a fricção da realidade.
Nos discursos, fala-se de preparação, de capacidade, de prontidão permanente, cuja a ideia transmitida é a de uma máquina afinada, onde cada peça cumpre a sua função com precisão quase cirúrgica, mas quem está dentro dessa engrenagem conhece-lhe os ruídos, sabe onde falha o óleo, onde falta a peça, onde o esforço humano substitui aquilo que o sistema não consegue garantir.
A prontidão permanente, tão celebrada, raramente é uma abstração, tem corpo, tem horas, tem desgaste, traduzindo-se em turnos que se prolongam para lá do razoável, em dias que não acabam quando deviam, com famílias em suspenso, em decisões tomadas com base no que há, não no que deveria haver e o que há, não raras vezes, é menos do que o necessário.
Fala-se também de proximidade, de uma presença constante, quase íntima, junto das populações, uma presença que conhece nomes, rotinas, fragilidades e isso é verdade, mas é uma verdade incompleta.
Porque essa proximidade não nasce apenas de uma estratégia bem desenhada, nasce, muitas vezes, da ausência de alternativas, da escassez de outros rostos do Estado, da necessidade de fazer mais do que aquilo que está definido, porque não há quem faça o resto, e assim se constrói uma relação que é, simultaneamente, nobre e pesada, sendo próxima, mas à custa de uma sobrecarga que raramente é reconhecida com a mesma intensidade com que é elogiada.
Depois há o reconhecimento, a palavra recorrente, quase obrigatória, reconhecendo-se o esforço, a dedicação, o sacrifício, condenando-se as agressões, lamentando-se os riscos, enaltecendo-se a coragem, sendo tudo isso dito e deve ser dito.
Mas o reconhecimento simbólico tem um limite, revelando-se quando não encontra correspondência no plano material, quando o aplauso não se traduz em condições e quando o elogio não altera a realidade concreta de quem continua a fazer o mesmo, nas mesmas circunstâncias, com os mesmos constrangimentos.
Há aqui uma espécie de paradoxo silencioso, quanto mais se valoriza no discurso, mais se expõe a fragilidade daquilo que não muda na prática.
Também se invoca, com frequência, a ideia de modernidade, de adaptação a novos tempos, novos desafios, novas ameaças, falando-se de evolução, de inovação, de capacidade estratégica, e, de facto, o mundo mudou e continua a mudar a uma velocidade que não permite complacências.
Mas a modernidade não se decreta, constrói-se com investimento, com organização, com flexibilidade, não bastando afirmar que se está preparado para o futuro quando o presente ainda se resolve com remendos, não bastando apontar para horizontes tecnológicos quando o quotidiano ainda depende, tantas vezes, de soluções improvisadas.
A realidade tem uma forma curiosa de resistir à retórica, não se contradizendo frontalmente, mas desgastando-a, tornando-a insuficiente.
E talvez o mais interessante, ou mais inquietante, seja perceber que este desfasamento é estrutural, fazendo parte de uma lógica onde o discurso serve uma função, tranquilizar, legitimar, consolidar confiança, e isso tem valor, porque o problema surge quando essa função se torna dominante e começa a substituir o confronto com o real.
Porque o real não desaparece por não ser dito.
Ele manifesta-se nas dificuldades, na exaustão acumulada, na sensação difusa de que se está sempre a correr atrás de um ideal que nunca se materializa completamente, manifestando-se naqueles que continuam, por sentido de dever, por orgulho, por compromisso, mesmo quando o sistema não lhes devolve na mesma medida.
E é aqui que a distância entre o país que se diz e o país que se vive se torna mais evidente.
Não se trata de negar o mérito, nem de desvalorizar o que funciona, tratando-se, isso sim, de recusar a ilusão de que a narrativa basta. Não basta.
Um país não se sustenta apenas naquilo que afirma ser, sustenta-se, sobretudo, naquilo que consegue garantir de forma consistente a quem nele serve.
Talvez o verdadeiro desafio não esteja em melhorar os discursos, esses continuarão a cumprir o seu papel, pelo que o desafio está em reduzir o intervalo, em aproximar o palco do terreno e em fazer com que as palavras não soem apenas bem, mas soem justas.
Porque, no fim, há uma pergunta que permanece, discreta, mas persistente, quantas vezes é preciso repetir uma verdade até que ela deixe de parecer uma promessa?
E a resposta, essa, não se encontra em cerimónias, encontra-se no quotidiano, esse lugar pouco solene onde, todos os dias, se mede a distância entre o que se diz e o que realmente é.
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