Há fins de semana que parecem apenas confirmar aquilo que já sabemos, e talvez seja precisamente essa a sua maior inquietação. Entre acidentes nas estradas, novas vítimas de violência doméstica, milhares de hectares consumidos pelo fogo e apreensões de droga, Portugal voltou, nos últimos dias, a confrontar-se com quatro realidades que não nasceram agora e que dificilmente desaparecerão amanhã, e o problema não é a existência destes fenómenos, é a nossa dificuldade em transformar dez anos de experiência em dez anos de aprendizagem.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
Comecemos pela estrada. Os dados divulgados nos últimos dias trouxeram uma conclusão particularmente incómoda: em 2025 morreram 589 pessoas nas estradas portuguesas, sendo menos 4,7% do que em 2024 e representa uma evolução positiva pelo segundo ano consecutivo. Mas, quando se olha para a década, a fotografia muda, porque entre 2015 e 2025, a redução foi de apenas 0,7% e Portugal continua, assim, praticamente estagnado, enquanto a mortalidade rodoviária permanece acima da média europeia, onde os feridos graves aumentaram 22,3% no mesmo período.
É difícil aceitar esta realidade num país que investiu tanto em estradas, veículos, tecnologia, fiscalização e campanhas de prevenção, não faltando radares, sinalização, legislação ou conhecimento sobre as causas dos acidentes, mas faltando, talvez, aquilo que é mais difícil de construir: uma cultura de segurança rodoviária. Porque um automóvel pode ser cada vez mais seguro e uma estrada pode ser cada vez melhor, mas nenhuma tecnologia consegue substituir o comportamento de quem conduz.
Na violência doméstica, o último fim de semana, trouxe uma notícia particularmente perturbadora, depois de três dias antes um jovem de 29 anos, ter matado à facada a namorada de 32, no concelho de Sintra, foi a vez de na Trofa, um homem de 78 anos ter matado a ex-mulher a tiro e suicidado de seguida, surgindo estes casos poucos dias depois de terem sido conhecidos os dados relativos ao segundo trimestre do ano: as participações por violência doméstica aumentaram 13,3% face aos primeiros três meses do ano e registaram-se sete vítimas mortais.
Não se trata, portanto, de uma sucessão de casos isolados, estando perante uma realidade persistente, apesar de uma década de reforço legislativo, campanhas de sensibilização, estruturas especializadas e instrumentos de proteção das vítimas.
E aqui reside uma das maiores contradições, porque nunca se falou tanto de violência doméstica, nunca houve tantos mecanismos para sinalizar, acompanhar e proteger, mas continuamos a conhecer demasiado frequentemente a existência do problema através da morte.
Nos incêndios rurais, os números são ainda mais eloquentes, tendo até 31 de julho, Portugal contabilizado 5.755 incêndios rurais e 53.731 hectares de área ardida, onde só 44 grandes incêndios tido sido responsáveis por cerca de 43.573 hectares, revelando uma concentração extraordinária da área ardida num número reduzido de ocorrências.
O fim de semana voltou a colocar o país em estado de vigilância perante o agravamento das condições meteorológicas, verificando-se temperaturas elevadas, baixa humidade e vento, constituindo a combinação conhecida de todos. O que também conhecemos há dez anos são as fragilidades do território: abandono agrícola, envelhecimento populacional, floresta desordenada, propriedades fragmentadas e insuficiente gestão de combustível.
A questão já não pode ser apenas quantos bombeiros temos ou quantos meios aéreos conseguimos mobilizar, a questão fundamental é outra: por que razão continuamos a permitir que uma ignição encontre um território preparado para arder?
A própria experiência recente confirma que uma parte significativa das ignições está associada ao comportamento humano, tendo a Guarda Nacional Republicana (GNR) identificado o uso negligente do fogo como uma das principais causas dos incêndios investigados.
No tráfico de droga, os números dos últimos dias são particularmente reveladores. Portugal já apreendeu, desde o início do ano, cerca de 28 toneladas de cocaína, ultrapassando em agosto o total apreendido em todo o ano de 2025, que se situou nas 25,6 toneladas, mas talvez a ocorrência que melhor demonstra como o crime se adapta mais rapidamente do que as sociedades, foi o acidente ocorrido no sábado, na A33, no Seixal, com duas vítimas mortais, que acabou por revelar uma realidade que ultrapassou largamente um simples sinistro rodoviário, tendo sido encontrados numa viatura droga, armas e um colete balístico, cuja a investigação foi entregue à Polícia Judiciária.
É uma imagem particularmente simbólica, que na mesma estrada onde discutimos velocidade, fiscalização e mortes, cruzam-se também outras formas de risco e criminalidade, verificando-se que o território da segurança não está dividido em compartimentos estanques, onde a criminalidade organizada aproveita as mesmas infraestruturas, a mesma mobilidade e a mesma capacidade de circulação que caracteriza uma sociedade aberta.
Em dez anos, as organizações criminosas sofisticaram métodos, redes e logística, tendo as autoridades também evoluído, mas a lógica permanece, porque apreendemos droga, detemos suspeitos, desmantelamos organizações, mas depois surgem outras e é precisamente aqui que os quatro fenómenos se encontram.
Na estrada, chegamos depois do acidente, na violência doméstica, demasiadas vezes depois da agressão, nos incêndios, depois da ignição e no tráfico, depois de a rede estar montada, não sendo uma crítica aos profissionais que estão na primeira linha, pelo contrário, porque Bombeiros, Forças de Segurança e profissionais de saúde demonstram diariamente capacidade e dedicação. O problema é mais profundo e pertence às políticas públicas.
Prevenir é menos mediático do que reagir, porque uma estrada onde não acontece um acidente não produz notícia, uma mulher protegida antes de ser vítima mortal não aparece nas estatísticas, uma floresta que não arde não permite contabilizar hectares poupados e uma rede criminosa impedida de se constituir não gera uma fotografia de uma grande apreensão, no entanto, é aí que deve ser medido o sucesso.
Os últimos dez anos deram-nos conhecimento suficiente para saber onde estão os riscos, instrumentos suficientes para agir e dados suficientes para identificar tendências, mas o que ainda nos falta é transformar esse conhecimento em antecipação, porque um Estado moderno não pode limitar-se a responder melhor às tragédias, tem de conseguir produzir menos tragédias.
E talvez esta seja a verdadeira pergunta que o último fim de semana nos deixa: depois de dez anos a contar mortos, vítimas, hectares ardidos e toneladas de droga apreendidas, quando começaremos finalmente a contar aquilo que conseguimos evitar e prevenir?
Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.



