Quarta-feira, Junho 10, 2026

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ENTRE O DESENRASCANÇO E O PLANEAMENTO

E porque hoje se assinala o “Dia de Portugal”, vamos refletir sobre a frase que se repete com frequência nas conversas sobre o nosso país, “os portugueses são excelentes a desenrascar, mas fracos a planear”, cuja a expressão surge quase sempre num tom ambivalente, entre o orgulho e a crítica, onde por um lado, se reconhece uma capacidade extraordinária de adaptação e improviso e por outro, aponta-se uma fragilidade estrutural na organização de longo prazo.

Rogério Copeto

Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna

Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda

Esta tensão não é apenas cultural ou psicológica, ela tem raízes históricas profundas e manifesta-se de forma particularmente evidente no funcionamento das instituições e nas consequências sociais dessa forma de estar.

O chamado desenrascanço é, antes de mais, uma forma de inteligência prática, tratando-se da capacidade de encontrar soluções rápidas para problemas inesperados, muitas vezes com recursos escassos, sendo esta competência valorizada em Portugal ao longo do tempo, porque as condições históricas frequentemente exigiram adaptação permanente, devido á escassez económica, à fragilidade das instituições e á complexidade burocrática, que criaram contextos em que resolver problemas dependia mais da criatividade individual do que da eficiência do sistema.

Para compreender esta característica é necessário olhar para a história, onde durante séculos, o Estado português foi relativamente frágil na sua capacidade administrativa, mesmo no período da expansão marítima, frequentemente apresentado como exemplo de planeamento estratégico, cujo o sucesso resultou tanto de decisões políticas como da iniciativa e improvisação de navegadores, comerciantes e administradores locais, tendo a expansão portuguesa sido em muitos momentos, um processo experimental, feito de tentativa e erro, onde a adaptação rápida era mais importante do que a previsibilidade institucional.

Nos séculos seguintes, esta tendência manteve-se, tendo o país vivido longos períodos de atraso económico em relação ao centro da Europa industrializada, onde as instituições do Estado foram frequentemente burocráticas e pouco eficientes, criando obstáculos à resolução simples de problemas quotidianos, e quando os sistemas não funcionam de forma previsível, as pessoas desenvolvem mecanismos paralelos para ultrapassar as dificuldades, porque é neste contexto que o desenrascanço se torna não apenas uma virtude individual, mas uma estratégia coletiva de sobrevivência.

O período do Estado Novo reforçou ainda mais esta lógica, cujo o regime autoritário centralizou o poder e criou uma administração fortemente burocratizada, mas pouco orientada para a modernização institucional, onde a rigidez das regras coexistia com uma grande distância entre a norma formal e a realidade prática, dependendo muitas decisões da interpretação pessoal de funcionários ou da intervenção de intermediários, e assim, aprender a “arranjar maneira” tornou-se uma competência social valorizada.

Após a revolução democrática de 1974, Portugal iniciou um processo de modernização institucional significativo, especialmente com a integração europeia, tendo sido criadas novas políticas públicas, modernizadas infraestruturas e reformadas várias áreas da administração, mas, no entanto, a cultura institucional herdada não desaparece rapidamente e muitas vezes, o planeamento estratégico continua a ser fragilizado por mudanças frequentes de prioridades políticas, ciclos governativos curtos e uma tendência para responder aos problemas apenas quando estes se tornam urgentes.

É aqui que a tensão entre desenrascanço e planeamento se torna particularmente visível nas instituições, sejam organizações públicas e privadas, onde o funcionamento quotidiano depende fortemente do esforço extraordinário de indivíduos, e funcionários dedicados compensam lacunas do sistema, improvisam soluções e mantêm serviços a funcionar apesar das limitações estruturais, revelando este fenómeno simultaneamente a qualidade das pessoas e a fragilidade dos processos institucionais.

Quando as instituições dependem demasiado da capacidade individual de resolver problemas, tornam-se menos previsíveis e menos consistentes, podendo a qualidade do serviço variar significativamente consoante a equipa ou a liderança existente, e em vez de sistemas robustos que funcionem independentemente das pessoas, criam-se estruturas onde o sucesso depende da iniciativa pessoal, pelo que este modelo pode funcionar no curto prazo, mas tem limitações claras quando se trata de implementar políticas públicas complexas ou reformas estruturais.

As consequências sociais desta dinâmica são relevantes, sendo uma delas a normalização da informalidade, onde os cidadãos aprendem desde cedo que, para resolver determinados problemas administrativos ou institucionais, é útil conhecer alguém que facilite o processo, cuja lógica não implica necessariamente corrupção, mas reforça uma cultura de mediação pessoal que fragiliza a confiança na imparcialidade dos sistemas.

Outra consequência é a dificuldade em manter políticas públicas de longo prazo, onde Projetos importantes se podem iniciar com entusiasmo e recursos, mas acabam por perder continuidade quando mudam os responsáveis políticos ou as prioridades governativas, porque o planeamento estratégico exige estabilidade institucional, capacidade técnica e compromisso coletivo ao longo do tempo, e quando essas condições não existem plenamente, as políticas tornam-se mais reativas do que antecipatórias.

Contudo, seria injusto olhar para esta característica apenas como um problema, porque o desenrascanço também representa uma forma de resiliência social, sendo que em contextos de crise, económica, financeira ou institucional, a capacidade de adaptação rápida pode ser uma vantagem importante, tendo a história recente de Portugal mostrado vários exemplos em que a sociedade demonstrou grande flexibilidade perante dificuldades inesperadas.

O desafio, portanto, não consiste em eliminar o desenrascanço, mas em integrá-lo numa cultura institucional mais orientada para o planeamento, porque as sociedades mais eficazes conseguem combinar duas dimensões aparentemente opostas, estruturas organizadas que antecipam problemas e, simultaneamente, flexibilidade suficiente para lidar com o imprevisto, onde planeamento sem capacidade de adaptação gera rigidez e improvisação sem planeamento gera instabilidade.

Portugal encontra-se precisamente neste ponto de equilíbrio em construção, tendo ao longo das últimas décadas, as instituições vindo a ganhar maior capacidade técnica e estratégica, mas o processo ainda está em evolução, pelo que a transformação cultural necessária é gradual, porque envolve não apenas reformas administrativas, mas também mudanças nas expectativas e práticas sociais.

Talvez a verdadeira maturidade institucional de uma sociedade se revele quando já não depende apenas do talento individual para resolver problemas, mas também da solidez dos sistemas que os evitam, sendo nesse momento, que o desenrascanço deixa de ser um substituto do planeamento e passa a ser apenas aquilo que sempre deveria ter sido, uma reserva criativa para enfrentar o inesperado.

Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.

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