Os 22 anos de prisão com que Sanches Cardas foi punido pelo homicídio do filho, é a pena mais pesada aplicada por um coletivo de juízes do tribunal de Beja por aquele crime, desde que entrou em vigor a reforma judicial de 2014. Os últimos homicídios ocorridos em Salvada e Baleizão, ambas no concelho de Beja, foram punidos com 20 anos.
Um coletivo de juízes do Tribunal de Beja aplicou ontem (terça-feira), em pena única de 23 anos de prisão a Sanches Cardas, de 68 anos, o homem que em junho de 2025 matou a tiro o filho mais velho, por causa de um negócio de cavalos. O patriarca da família foi condenado pelos crimes de homicídio qualificado agravado e posse de arma proibida.
Orlando Cardas, de 35 anos, irmão da vítima e filho de Sanches, foi condenado a nove anos de prisão por cumplicidade no homicídio qualificado agravado, não por co-autoria, mas, por cumplicidade. O arguido beneficiou do facto do coletivo ter deixado cair mais três crimes que sobre ele pendiam.
O Tribunal de Beja determinou ainda o pagamento de forma solidária pelos dois arguidos, de uma indemnização total de 195 mil euros, repartido por cinco items de danos provocados pelo crime, à viúva e aos três filhos de António.
Recorde-se que o crime aconteceu na manhã de 10 de junho do ano passado, na sequência de uma discussão motivada pela compra e venda de um animal, que rapidamente degenerou em atos de violência envolvendo diversos familiares da família Cardas que culminaram na morte de António, no acampamento do Baldio das Ferrarias, em Amareleja, concelho de Moura, às mãos do pai que fez um disparo de caçadeira a curta distância.
Antes de ler as penas a aplicar aos arguidos, o presidente do coletivo não poupou críticas a Sanches Cardas: “o senhor não merece voltar a saborear a liberdade. Esta pena a ser cumprida na totalidade, não lhe resta alternativa de vida”, justificou. As palavras do juiz são uma resposta ao arguido quando na primeira sessão do julgamento disse que “um pai que mata um filho não deve ser preso, deve ser enforcado”, concretizou.
O tribunal deu como provado que Sanches empunhou a caçadeira e a dois metros fez um disparo contra o filho, António Cardas, de 40 anos, enquanto que Orlando instigou o pai quando lhe disse “dispara nele”, sustentou o magistrado. Sobre a versão apresentado pelo arguido da forma como ocorreu o disparo, não mereceu credibilidade por partes dos magistrados do coletivo, já que foi o próprio homicida que numa outra versão do que acontecera, visando ilibar o filho, contou a verdade dos factos.
O patriarca da família Cardas ouviu o juiz criticar a sua postura em tribunal por não ter assumido o mínimo respeito e compaixão pela morte do filho. Quando a Orlando as palavras também não foram simpáticas: “apesar do depoimento concertado de algumas testemunhas, e na ânsia de o absolver, foi o seu pai que contou uma versão que o implicou. Você podia ter evitado isto tudo, mas, motivou o seu pai a disparar”, disse.
Pedro Pestana, advogado de Sanches Cardas, disse ao Lidador Notícias que vai recorrer da decisão para o Tribunal da Relação de Évora (TRE), não descartando “a possibilidade da repetição do julgamento”, face a um recurso para que o julgamento tivesse decorrido perante um tribunal de júri recusado pelo juiz-presidente do coletivo de juízes.
Os dois arguidos, vão aguardar o trânsito em julgado do acórdão em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Beja, situação em que se encontram desde a prática do crime.
Certidão por violência doméstica
A procuradora do Ministério Público fez chegar ao processo um requerimento onde pede que seja retirada uma certidão para eventual procedimento criminal contra Sanches Cardas, por violência doméstica. Em causa o facto de na segunda sessão do julgamento o arguido ter ofendido a nora, apelidando-a de “aldrabona” e que “queria dinheiro” não revelando respeito pela perda do marido.
Pena mais pesada por homicídio
Os 22 anos de prisão com que Sanches Cardas foi punido pelo homicídio do filho, é a pena mais pesada aplicada por um coletivo de juízes do tribunal de Beja por aquele crime, desde que entrou em vigor a reforma judicial de 2014. Os últimos homicídios ocorridos em Salvada e Baleizão, ambas no concelho de Beja, foram punidos com 20 anos.
Teixeira Correia
(jornalista)


