A Força Aérea Portuguesa (FAP) acaba de atingir mais um marco importante no processo de modernização de sua aviação militar. A Embraer anunciou oficialmente a entrega do terceiro exemplar do transporte multimissão KC-390 Millennium — de um total de seis encomendados — e, simultaneamente, a realização do tão aguardado voo inaugural do A-29N Super Tucano, uma nova versão do consagrado turboélice adaptada aos padrões da OTAN.
Por Prof. Luiz Reis – Editor do “Tudo Sobre Defesa”
É historiador, pesquisador e Editor do canal “Tudo Sobre Defesa” no Instagram, especializado em História Militar, Estratégia, Defesa e Geopolítica, além de assuntos militares contemporâneos.
Esses dois acontecimentos não apenas reafirmam a confiança estratégica entre Portugal e o Brasil, como também posicionam a FAP como pioneira no continente europeu na adoção de tecnologias de última geração desenvolvidas pela Embraer.
KC-390 Millennium: a espinha dorsal da logística militar portuguesa
O KC-390 Millennium é um avião de transporte tático com capacidades multifuncionais, projetado para substituir os veteranos Lockheed C-130 Hercules. Com uma estrutura robusta, aviônica moderna e sistemas automatizados de controle de missão, o KC-390 representa um salto tecnológico em relação à geração anterior.
Capaz de transportar até 26 toneladas de carga, o Millennium pode operar em pistas curtas ou não pavimentadas e realiza missões de transporte logístico, evacuação aeromédica, lançamento de cargas e tropas paraquedistas, combate a incêndios (com o sistema MAFFS II), e reabastecimento aéreo — inclusive entre caças e helicópteros, graças às suas pods instalados nas asas.
A versão portuguesa é equipada com a suíte de comunicações Link 16 e aviônicos compatíveis com os requisitos da OTAN. A entrega do terceiro avião — de um lote de seis — reforça a capacidade de resposta da FAP em cenários de paz, conflito e ajuda humanitária.
Importante destacar que parte significativa da fuselagem do KC-390 é produzida em solo português, pela OGMA – Indústria Aeronáutica de Portugal, localizada em Alverca do Ribatejo. Isso demonstra que a cooperação Embraer-Portugal vai além da simples relação cliente-fornecedor, alcançando níveis industriais e estratégicos.
A-29N Super Tucano: Portugal estreia versão OTAN do turboélice brasileiro
Outra novidade que chamou atenção foi o primeiro voo do A-29N Super Tucano, a nova variante do renomado A-29 adaptada para os padrões da OTAN. O “N” se refere à sigla NATO, e a versão traz sistemas de comunicação e navegação compatíveis com os requisitos da aliança atlântica, além de melhorias específicas em segurança de voo, treinamento tático e integração de armamentos.
Portugal é o primeiro país da Europa a operar essa nova configuração. Ao todo, foram encomendadas 12 unidades, que terão papel fundamental no treinamento avançado de pilotos da FAP, além de poderem atuar em missões de policiamento aéreo, apoio aéreo aproximado (CAS), vigilância de fronteiras e combate a ameaças assimétricas.
O A-29N chega em um momento estratégico, com a crescente necessidade de plataformas de menor custo operacional, mas que mantenham alta eficácia em missões reais. Com mais de 260 unidades entregues a forças aéreas de 15 países, o Super Tucano já provou seu valor em combate em diversos continentes.
A entrega do primeiro A-29N à Força Aérea Portuguesa está prevista para o início de 2026. Essa aquisição se soma a outras iniciativas de renovação de meios militares em Portugal, como a modernização da frota de helicópteros e a compra de novos sistemas de defesa antiaérea.
Cooperação estratégica e industrial
A parceria entre a Embraer e o governo português remonta à década passada, e vem se consolidando tanto no campo tecnológico quanto industrial. Portugal não só integra a cadeia produtiva da Embraer, como também se beneficia da transferência de conhecimento e do fortalecimento de sua base aeroespacial.
A OGMA, atualmente controlada majoritariamente pela Embraer, desempenha papel central na produção e manutenção de aeronaves militares e civis. Com o sucesso do KC-390 e a adoção do A-29N, essa sinergia tende a se expandir, posicionando Portugal como um hub europeu para suporte logístico e industrial dessas plataformas.
Considerações finais
Portugal mostra que é possível modernizar sua aviação militar com inteligência estratégica, valorizando parcerias duradouras, tecnologia de ponta e inserção em cadeias produtivas globais. O KC-390 e o A-29N representam mais do que novas aeronaves: são símbolos de uma nova era para a Força Aérea Portuguesa, pautada pela eficiência, interoperabilidade e soberania tecnológica.


