Quinta-feira, Abril 30, 2026

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Morreu o escritor e jornalista mourense Mário Zambujal.

O escritor e jornalista Mário Zambujal, natural de Moura, morreu, esta quinta-feira, aos 90 anos, deixando uma marca não só na literatura portuguesa, como no jornalismo e também na rádio e na televisão. Autor do romance “Crónica dos Bons Malandros”.

Ao longo de mais de cinco décadas de atividade, construiu uma obra reconhecida pelo humor subtil, pela ironia elegante e por um olhar atento sobre as fragilidades humanas. Entre romances, crónicas e programas de comunicação social, Zambujal tornou-se uma das vozes mais singulares da cultura portuguesa contemporânea.

Nascido em Moura, em 1936, cedo encontrou no jornalismo o primeiro território de expressão. Ainda jovem começou a escrever num pequeno jornal satírico e, a partir daí, fez carreira em várias redações portuguesas. Passou por títulos marcantes como “Diário de Notícias”, “A Bola” e “Diário de Lisboa”, e viria mais tarde a dirigir projetos como o jornal “Tal & Qual” e a revista “Se7e”. Foi sobretudo no jornalismo desportivo e na crónica que consolidou um estilo muito próprio, feito de frases simples, observação fina e uma ironia que raramente era agressiva.

Apesar do percurso na imprensa, foi a literatura que lhe trouxe uma notoriedade duradoura. Em 1980 publicou “Crónica dos Bons Malandros”, romance que rapidamente conquistou leitores e se transformou num dos livros mais populares da ficção portuguesa das últimas décadas. A história acompanha um grupo improvável de pequenos criminosos que planeia um assalto ao Museu Gulbenkian, numa narrativa que mistura humor, crítica social e uma certa ternura pelas personagens marginais.

O sucesso do livro ultrapassou o universo literário. A obra foi adaptada ao cinema pelo realizador Fernando Lopes e, anos mais tarde, inspirou também uma série televisiva. Essa permanência no imaginário coletivo demonstra a força de uma narrativa que, apesar do tom leve e irónico, retrata com grande humanidade as contradições da sociedade portuguesa.

Zambujal continuou a publicar ao longo das décadas seguintes. Entre romances, contos e coletâneas de crónicas, construiu uma bibliografia extensa que inclui títulos como “Histórias do Fim da Rua”, “À Noite Logo Se Vê”, “Já Não Se Escrevem Cartas de Amor” ou “Últimas Notícias do Paraíso”. Nos seus livros, as personagens surgem muitas vezes como figuras do quotidiano: gente comum, com pequenas ambições e grandes fragilidades, retratadas com humor e compreensão.

Paralelamente, manteve sempre uma ligação forte à rádio e à televisão. Participou em diferentes projetos ao longo dos anos, destacando-se a presença no programa radiofónico “Pão com Manteiga”, que marcou gerações de ouvintes e reforçou a sua popularidade junto do público. A sua forma descontraída de falar e a capacidade de contar histórias tornaram-no também um convidado frequente em programas televisivos e debates culturais.

Apesar da notoriedade, Mário Zambujal cultivava uma postura discreta e um certo distanciamento em relação ao estatuto de escritor. Preferia apresentar-se como alguém que gostava simplesmente de contar histórias. Essa atitude refletia-se também nas suas palavras, muitas vezes citadas em entrevistas e crónicas. Uma das frases que melhor resume o seu modo de olhar para a vida ficou célebre: “O meu maior prazer é estar em paz.”

Ao longo da carreira recebeu várias distinções, entre elas o Prémio Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube de Jornalistas, que reconheceu o contributo para o jornalismo português. Mas talvez o maior reconhecimento tenha vindo do público, que encontrou nos seus livros uma mistura rara de humor, inteligência e humanidade.

Com a morte de Mário Zambujal desaparece um autor que soube cruzar diferentes linguagens: jornalismo, literatura, rádio e televisão: sem nunca perder a leveza do olhar. Nas páginas que deixou e nas histórias que contou permanece um estilo inconfundível: o de quem via no quotidiano, matéria suficiente para grandes narrativas e acreditava que, mesmo nas imperfeições da vida, há sempre espaço para um sorriso.

Notícia: Jornal de Notícias/ Lidador Notícias

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