O início de um novo ano constitui, inevitavelmente, um momento de balanço e de projeção estratégica e em matéria de Segurança Interna (SI), revestindo-se esse exercício de particular relevância, pois dele depende a capacidade do Estado em garantir direitos fundamentais, proteger pessoas e bens e preservar a confiança dos cidadãos nas instituições.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
O novo ano inicia-se num contexto marcado por velhos riscos, problemas estruturais persistentes e desafios emergentes, exigindo uma atuação clara, firme e coordenada das autoridades, e apesar de Portugal continuar a figurar entre os países mais seguros da Europa, importa sublinhar que a segurança não se mede apenas por rankings internacionais ou estatísticas globais, mede-se, sobretudo, pela capacidade de antecipar fenómenos, intervir de forma preventiva e responder eficazmente a situações que afetam diretamente a vida quotidiana das populações.
A perceção de segurança é tão importante quanto os números, e ignorá-la constitui um erro estratégico, pelo que um dos temas que deverá merecer atenção prioritária em 2026 é, sem dúvida, a Violência Doméstica (VD), porque se trata de um fenómeno transversal, persistente e profundamente enraizado na sociedade portuguesa, que não se resolve apenas com alterações legislativas ou campanhas de sensibilização, exigindo respostas integradas, avaliação rigorosa e contínua do risco, acompanhamento efetivo das vítimas e responsabilização clara dos agressores, porque cada homicídio em contexto de violência doméstica representa uma falha grave do sistema e impõe uma reflexão séria sobre os mecanismos de prevenção e proteção existentes.
Outra preocupação prende-se com a criminalidade urbana e o sentimento de insegurança, em particular nos grandes centros urbanos, cujos crimes contra o património, roubos, furtos qualificados e fenómenos de delinquência juvenil, mesmo quando estatisticamente controlados, têm um impacto significativo na perceção de insegurança, pelo que as autoridades devem apostar de forma consistente no Policiamento de Proximidade, na visibilidade e na prevenção situacional, evitando leituras simplistas ou discursos alarmistas, porque a segurança constrói-se com presença no terreno, conhecimento das comunidades e capacidade de intervenção rápida, mas também com políticas sociais complementares que reduzam fatores de risco.
O ano de 2026 exigirá igualmente atenção redobrada aos fenómenos de radicalização ideológica, extremismos violentos e ameaças híbridas, porque embora Portugal não seja considerado um alvo prioritário, os acontecimentos recentes demonstram que nenhum país está imune a dinâmicas de ódio, desinformação e violência organizada, pelo que a prevenção destes fenómenos passa por informações policiais eficazes, cooperação internacional e monitorização dos ambientes digitais onde se promovem discursos extremistas, tendo em conta que a segurança moderna não se faz apenas nas ruas, faz-se também no espaço digital e virtual.
Neste contexto, a cibercriminalidade assume uma relevância crescente, onde burlas digitais, ransomware, crimes informáticos e exploração ilícita de dados pessoais afetam cidadãos, empresas e o próprio Estado, pelo que em 2026, será essencial reforçar a capacitação técnica das Forças de Segurança (FS), investir na formação especializada e aprofundar a cooperação com o setor privado, pelo que a proteção das infraestruturas críticas, nomeadamente de energia, comunicações, transportes, sistemas de saúde, é hoje tão essencial quanto a proteção das fronteiras físicas de um Estado, porque o ciberespaço é um novo território de risco que exige respostas estruturadas e permanentes.
A gestão das fronteiras, os fluxos migratórios e o combate ao tráfico de seres humanos deverão continuar igualmente a exigir atenção prioritária, importando distinguir claramente políticas de acolhimento e integração, legítimas e necessárias, de fenómenos criminais que exploram a vulnerabilidade humana, devendo as FS dispor dos meios adequados, recursos humanos suficientes e enquadramento legal claro, garantindo simultaneamente segurança e respeito pelos direitos humanos.
Nenhuma estratégia de segurança será eficaz sem a valorização efetiva das FS, devendo o ano de 2026 ser um ano de investimento sério nos profissionais, com melhores condições de trabalho, formação contínua, equipamentos adequados e reconhecimento institucional, porque exigir mais sem garantir melhores condições é um erro estratégico que fragiliza o sistema e compromete a eficácia operacional.
Em conclusão, o ano de 2026 coloca às autoridades portuguesas um conjunto de desafios complexos, interligados e exigentes, onde a VD, a criminalidade urbana, a radicalização, o cibercrime e gestão de fronteiras requerem uma visão estratégica, coordenação institucional e liderança responsável, porque a segurança não se constrói com alarmismos nem com complacência, constrói-se com planeamento, proximidade, profissionalismo e confiança mútua entre o Estado e os cidadãos, e é sobre estes pilares que deve assentar a ação das autoridades no novo ano que agora se inicia.
Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.



