O Alentejo vai ser a única região portuguesa a perder verbas europeias dos fundos de coesão ao abrigo da regra basilar que atribui mais dinheiro aos territórios pobres. O enriquecimento da região alentejana foi artificial e resultou da criação de mais duas novas regiões em 2023.
O Jornal de Notícias (JN) revela hoje que as verbas para o período entre 2028 e 2034 têm em conta a subida do PIB per capita Norte, Centro e as novas regiões do Oeste e Setúbal na categoria das mais pobres.
Como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da região alentejana aumentou, segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a perda prevista para os fundos europeus de 2028 a 2034 é de 700 milhões de euros, mais de metade do que recebe agora.
O crescimento acima do limiar dos 75% da média da UE faz com que o Alentejo deixe de ser uma região menos desenvolvida para efeitos de fundos europeus, e passe a ser um território em transição, o que implica o corte.
No quadro financeiro atual (2021-2027), a região tem direito a cerca de 1100 milhões de euros. No próximo exercício (20282034), perderá mais de metade. Concretamente, os cortes aplicam-se no Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e no Fundo Social Europeu. Têm impacto de forma dupla: será menor a fatia do bolo global a atribuir à região através dos programas regionais; e baixam também as percentagens de comparticipação de cada projeto.
MÉDIA ULTRAPASSA POR POUCO
Se o próximo quadro, ainda em discussão, levar em linha de conta o mecanismo habitual de cálculo, as regiões serão categorizadas com base no PIB per capita médio dos anos 2022 a 2024. Todas as portuguesas mantêm a posição, exceto o Alentejo, que passa a ser uma região em transição devido à média de 76% (ver infografia). O Norte mantém-se entre as regiões mais pobres que recebem mais fundos, pois tem o PIB per capita em 69%, na média de 2022 a 2024.
Há cinco meses, o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo, António Ceia da Silva, que gere as verbas destes fundos de coesão, já não escondia os receios do que aí vinha. Passar para região em transição, dizia, implicava “perder cerca de 700 milhões de euros”. O responsável justificou que foi o desenvolvimento de Sines que fez crescer o PIB regional: “Significa um rendimento brutal do ponto de vista destes índices económicos”.
COMO “ENRIQUECEU” EM 2023
O presidente da Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo, João Grilo, também manifestou preocupação pública com a possibilidade de perda de fundos: “Se, de um momento para o outro, ficarmos sem eles, teremos que mudar completamente o nosso modelo de crescimento e desenvolvimento”.
Os dados do INE indicam que Sines não terá sido o único motivo para o súbito aumento da riqueza do Alentejo. O salto deu-se em 2023, o ano em que o Governo de António Costa viu confirmada a criação de duas novas regiões (Península de Setúbal e Oeste e Vale do Tejo), constituídas por municípios da Área Metropolitana de Lisboa e do Alentejo. As sub-regiões mais pobres do território alentejano, como a Lezíria do Tejo, foram transferidas para a recém-criada região do Oeste e Vale do Tejo. Com isto, o PIB per capita do Alentejo passou a ser calculado apenas com as sub-regiões mais ricas e aumentou de forma artificial.
Segundo os dados do INE, o PIB do Alentejo esteve abaixo dos 75% da média da UE desde 2010. Em 2023, que foi o primeiro ano de vigência das novas regiões, deu um salto de 73% para 77% e manteve essa percentagem em 2024. O primeiro centro de dados de Sines só arrancou em 2024.
Notícia: Jornal de Notícias


