A recente notícia sobre o furto de toneladas de laranjas no Algarve trouxe novamente para a atualidade uma realidade que, apesar de recorrente, continua a surpreender muitos portugueses, porque para quem vive nas cidades, a ideia de grupos organizados a percorrerem pomares durante a noite para furtar fruta pode parecer quase insólita, mas para quem vive e trabalha no mundo rural, infelizmente, não tem nada de extraordinário.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
Há 15 anos, a principal preocupação não eram as laranjas, era o cobre, que se transformou num dos bens mais apetecíveis para a criminalidade organizada no Mundo Rural, pelo que sistemas de rega, equipamentos agrícolas, postos de transformação, linhas elétricas e infraestruturas de telecomunicações eram alvo de furtos para a remoção de alguns quilos de metal que posteriormente entravam em circuitos paralelos de comercialização.
Os prejuízos ultrapassavam em mais de 10 vezes o valor do material furtado, podendo uma aldeia ou exploração agrícola ficar dias sem energia, uma estação elevatória deixar de funcionar e um sistema de rega ficar inutilizado durante semanas, cujo o impacto económico era enorme, onde se incluía a perda de culturas inteiras, crescendo a sensação de insegurança em todo o Mundo Rural.
Foi nesse contexto que nasceu uma das mais importantes iniciativas de prevenção criminal desenvolvidas em Portugal nas últimas décadas pela Guarda Nacional Republicana (GNR): o “Campo Seguro”.
A origem do “Campo Seguro” está ligada ao combate ao furto de metais não preciosos, tendo sido possível através da articulação entre a GNR, agricultores, empresas de infraestruturas de energia e de telecomunicações, e diversas entidades públicas e privadas, criar mecanismos de vigilância, partilha de informação e prevenção que acabaram por produzir resultados notáveis.
Os números demonstraram que a estratégia estava correta, pelo que em poucos anos, os furtos de metais não preciosos sofreram uma redução muito significativa, deixando de constituir um dos principais problemas de segurança nacional, provando-se de que a prevenção, a proximidade e a cooperação podem ser tão ou mais eficazes do que a simples repressão criminal.
Mas o Mundo Rural também produz vários produtos capazes de gerar lucro rápido, onde a azeitona, impulsionada pela valorização do azeite nos mercados internacionais, sempre despertou o interesse dos criminosos, registando-se em várias regiões do Alentejo furtos em olivais durante as campanhas de apanha, cuja a resposta surgiu através de ações específicas de vigilância através da implementação da “Operação Azeitona Segura”.
O mesmo aconteceu com a cortiça, um produto de excelência da economia portuguesa, reconhecido internacionalmente pela sua qualidade e importância ambiental, passou também a ser alvo de grupos organizados que procuravam retirar proveito do elevado valor comercial do sobreiro, pelo que durante os períodos de descortiçamento, a presença da GNR junto dos produtores tornou-se essencial, nascido assim a “Operação Cortiça Segura”.
Em diversas regiões surgiram igualmente preocupações relacionadas com outros produtos agrícolas, como a alfarroba, a pinha mansa, a amêndoa e até as colmeias, repetindo-se o padrão continuamente, sempre que um produto adquire valor económico relevante, aumenta a probabilidade de atrair a atenção de quem procura obter lucro através da atividade criminosa, sem esquecer a maquinaria agrícola, os combustíveis e os sistemas de rega alimentados por painéis solares.
É precisamente neste contexto que devemos interpretar as recentes denúncias dos produtores algarvios sobre o furto de laranjas.
O Algarve é uma das principais regiões produtoras de citrinos da Europa e por isso constitui um ativo económico relevante para centenas de explorações agrícolas e para a economia regional, pelo que quando toneladas de fruta desaparecem durante a noite, não estamos perante pequenos furtos ocasionais, estamos perante ações que exigem logística, transporte, canais de escoamento e capacidade de colocação do produto no mercado.
Há dez anos, a GNR reconheceu essa ameaça através da “Operação Citrino Seguro”, cujo o objetivo era reforçar a vigilância durante os períodos mais sensíveis da campanha agrícola, aumentando o patrulhamento e a proximidade com os produtores, tendo as várias detenções em flagrante demonstrado então que o problema existia e justificava uma resposta específica.
Passada uma década, as notícias mostram que essa necessidade continua presente.
Mas o verdadeiro desafio do Mundo Rural português é mais profundo, é o despovoamento de muitas regiões, que criou vastas áreas com reduzida presença humana, e onde antigamente existiam comunidades numerosas, capazes de identificar rapidamente movimentos estranhos, existem hoje propriedades dispersas, envelhecimento populacional e menor vigilância informal.
A segurança do Mundo Rural não depende apenas da ação da GNR, depende também da capacidade das comunidades se organizarem, da utilização inteligente da tecnologia, da rastreabilidade dos produtos e da responsabilização dos circuitos comerciais que adquirem mercadorias de proveniência duvidosa.
A experiência adquirida com o combate ao furto de metais não preciosos oferece uma lição importante, porque quando existe cooperação entre produtores, associações, autarquias e GNR, os resultados aparecem e quando a prevenção é encarada como prioridade estratégica, a criminalidade perde espaço para atuar.
Por isso, iniciativas como o “Campo Seguro”, o “Citrino Seguro”, a “Azeitona Segura” ou a “Cortiça Segura” continuam a fazer sentido, não apenas porque ajudam a recuperar bens ou a deter infratores, mas porque transmitem uma mensagem fundamental a quem vive da terra. O mundo rural não pode ser um território esquecido.
Proteger quem produz é proteger a economia, o território e a coesão nacional e essa continuará a ser uma responsabilidade coletiva de todos os que acreditam no futuro do Portugal rural.
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