Terça-feira, Janeiro 13, 2026

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A EUROPA NA ESTRATÉGIA NORTE-AMERICANA: ENTRE O DECLÍNIO E A RENOVAÇÃO

A “National Security Strategy of the United States of America – 2025” (Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América de 2025), que foi dada a conhecer na semana passada, redefine as prioridades globais da administração Trump, dedicando especial atenção ao continente europeu, apresentando uma visão renovada sobre o papel da Europa no cenário internacional e na relação transatlântica.

Rogério Copeto

Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna

Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda

O presente artigo sintetiza essas referências, destacando a forma como os Estados Unidos da América (EUA) enquadram a Europa no contexto mais amplo da sua estratégia global, tanto pelos seus desafios internos, quanto pelo seu papel estratégico para os interesses norte‑americanos, surgindo a Europa descrita como um parceiro vital, mas simultaneamente como um continente em declínio profundo.

O documento afirma que a Europa vive uma crise que ultrapassa as questões económicas e militares, atingindo dimensões civilizacionais, cuja a queda da quota europeia no PIB mundial, de 25% em 1990 para 14% na atualidade, é apresentada como sintoma de um enfraquecimento estrutural causado, segundo a análise norte‑americana, por regulações excessivas, políticas comunitárias que sufocam a soberania dos Estados, e escolhas estratégicas incapazes de promover inovação e crescimento, necessitando a Europa urgentemente de recuperar o dinamismo económico, a autoconfiança cultural e a capacidade de ação independente.

Outro eixo central da visão norte-americana diz respeito à crise demográfica e identitária, argumentando o documento que a Europa enfrenta uma “erosão civilizacional” acelerada, associada a políticas migratórias que transformam sociedades, à queda acentuada das taxas de natalidade e ao enfraquecimento da autoestima nacional, estendendo-se esta crítica a uma deriva censória e antidemocrática em alguns países europeus, acusados de suprimir oposição política e limitar a liberdade de expressão, considerando a administração americana, que estas tendências constituem ameaças diretas à capacidade da Europa de permanecer um aliado sólido e previsível.

No que se refere à segurança europeia, o conflito na Ucrânia ocupa lugar central, defendendo os EUA a necessidade de um fim rápido e negociado da guerra, argumentando que a continuidade do conflito prejudica a economia europeia, aumenta riscos de escalada e impede o restabelecimento de uma estabilidade estratégica com a Rússia.

O documento sublinha ainda que, apesar de perceções amplas de ameaça, os países europeus possuem uma vantagem significativa sobre Moscovo em termos de poder militar convencional, com exceção das armas nucleares, pelo que os EUA propõem que a Europa recupere capacidade de defesa, não apenas para autoproteção, mas também para se tornar menos dependente do apoio norte‑americano, num processo de “normalização” estratégica que permitiria aos EUA concentrar‑se noutras regiões prioritárias.

A relação com a Rússia é apresentada como um ponto onde a diplomacia norte‑americana deve atuar de forma assertiva, inclinando-se a estratégia para uma reconfiguração das relações euro‑russas após o conflito, com o objetivo de evitar a expansão ou escalada da guerra e de criar condições políticas que permitam a reconstrução da Ucrânia como Estado viável, cujo reposicionamento é essencial não apenas para a segurança, mas também para evitar que a Europa continue presa a crises políticas internas alimentadas pela instabilidade externa.

Apesar das críticas duras, os EUA reafirmam que a Europa continua a ser um pilar cultural, económico e estratégico essencial, sendo o comércio transatlântico descrito como uma das bases da prosperidade global, onde a Europa continua a ser vista como fonte de inovação, investigação científica e capacidade industrial, pelo que o documento rejeita qualquer ideia de afastamento estrutural do continente, propondo uma estratégia dual, que passa por pressionar a Europa a reformar‑se internamente e, ao mesmo tempo, reforçar laços nos domínios político, económico, tecnológico e cultural.

Do ponto de vista económico, os EUA solicitam que os países europeus ajustem políticas comerciais para contribuir para o reequilíbrio das relações globais, especialmente no contexto da crescente rivalidade com a China, destacando o documento que a Europa detém grandes reservas financeiras internacionais que devem ser mobilizadas para apoiar investimentos estratégicos no chamado “Sul Global”, como parte de uma resposta coordenada ao avanço da China em regiões emergentes.

Estrategicamente, o documento estabelece que os EUA pretendem “promover a grandeza europeia”, uma expressão que sintetiza a ambição de ver a Europa recuperar os seus valores tradicionais, reforçar a coesão interna e reerguer a sua capacidade militar, pretendendo Washington aprofundar a cooperação com países da Europa Central, Oriental e Meridional, considerados mais alinhados com esta visão, por meio de acordos comerciais, vendas de armamento, colaborações políticas e intercâmbio cultural.

Em suma, a Europa é vista pelos EUA simultaneamente como desafio e oportunidade, pelo que querem uma Europa forte, soberana e confiante, capaz de partilhar responsabilidades globais e de funcionar como parceira estratégica na defesa de um mundo multipolar favorável aos interesses ocidentais, no entanto, para que isso aconteça, a Europa terá de enfrentar as crises internas que a debilitam, pelo que o documento norte‑americano deixa claro, o futuro da relação transatlântica dependerá não só da força dos laços históricos, mas da capacidade da Europa de se renovar, económica, política e civilizacionalmente.

Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.

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