Ao longo de mais de três décadas de serviço público, tive o privilégio de testemunhar, e em muitos momentos de participar ativamente, numa das mais significativas transformações ocorridas no seio da Guarda Nacional Republicana (GNR): a evolução de uma força tradicionalmente associada à manutenção da ordem para uma instituição reconhecida como elemento essencial de coesão social e de confiança comunitária.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
A história da GNR confunde-se com a própria história contemporânea de Portugal.
Presente nos mais recônditos territórios do país, muitas vezes onde outras estruturas do Estado não conseguem chegar com a mesma regularidade, a GNR assumiu desde cedo uma responsabilidade que ultrapassa largamente as funções estritamente policiais, tendo a proximidade às populações, sobretudo às mais envelhecidas e isoladas, revelado uma dimensão incontornável da missão institucional.
Durante muitos anos, a perceção pública da GNR esteve excessivamente ligada à vertente fiscalizadora e repressiva, que exercia a autoridade, sobretudo, através da presença e da capacidade de intervenção, contudo, as profundas alterações demográficas, sociais e tecnológicas obrigaram a repensar os modelos de atuação e a desenvolver novas respostas para desafios cada vez mais complexos.
Foi neste contexto que emergiu uma nova doutrina de proximidade, assente na convicção de que a segurança não se limita à repressão da criminalidade, cuja a verdadeira segurança constrói-se através da confiança, da prevenção e do conhecimento profundo das comunidades, tendo esta mudança de paradigma permitido que a GNR se aproximasse dos cidadãos de forma mais humana, mais eficaz e, acima de tudo, mais útil.
A criação e consolidação das Secções de Programas Especiais agora denominadas Secções de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário representaram um marco decisivo neste percurso, trazendo para o centro da ação policial uma dimensão social que, embora sempre presente na prática diária dos militares, carecia de enquadramento estratégico e metodológico, tendo sido através destas estruturas que ganharam expressão alguns dos mais emblemáticos programas especiais da GNR, transformando a prevenção e a proximidade em pilares fundamentais da sua identidade institucional, cujo trabalho no âmbito do Programa Escola Segura aproximou a GNR das comunidades educativas, promovendo a cidadania, a prevenção de comportamentos de risco e a construção de ambientes escolares mais seguros, no Programa Apoio 65 – Idosos em Segurança, a GNR tornou-se uma referência nacional no combate ao isolamento, à vulnerabilidade e aos fenómenos de vitimização da população sénior, assegurando acompanhamento regular e uma presença permanente junto dos mais frágeis, nomeadamente com a criação da Operação Censos Sénior, bem como noutros programas como o Comércio Seguro, que reforçou a proteção dos comerciantes e empresários, contribuindo para a prevenção da criminalidade e para o fortalecimento do sentimento de segurança nas áreas urbanas e rurais.
A estes programas juntaram-se outras iniciativas, como o Residência Segura, os programas de prevenção da violência doméstica e de apoio às vítimas, bem como as ações de sensibilização dirigidas às novas ameaças associadas ao ambiente digital, cujo contacto regular com idosos isolados, a identificação de situações de vulnerabilidade social, a prevenção da violência doméstica e a sensibilização das crianças e jovens para comportamentos de risco passaram, assim, a integrar uma missão mais ampla de proteção, acompanhamento e promoção da coesão social, verificando-se que mais do que simples programas especiais, estas iniciativas traduzem uma visão moderna da segurança, assente na proximidade, na prevenção e na construção de relações de confiança duradouras entre a GNR e os cidadãos.
Assim, nas localidades do interior, marcadas pelo envelhecimento populacional e pela desertificação humana, o militar da Guarda tornou-se muito mais do que um agente da autoridade, tornou-se um rosto familiar, uma referência de confiança e, não raras vezes, o primeiro interlocutor de cidadãos que vivem em situação de solidão ou fragilidade, verificando-se que quando um militar entra na casa de um idoso para verificar o seu bem-estar, não está apenas a cumprir um procedimento operacional, está a reforçar a presença do Estado e a demonstrar que a segurança também se constrói através da atenção, da empatia e do cuidado.
Esta visão integrada permitiu igualmente compreender que muitos problemas de segurança têm origem em fenómenos sociais que exigem respostas multidisciplinares, pelo que a deteção de situações de pobreza extrema, de abandono, de isolamento ou de exclusão social passou a gerar mecanismos de articulação com autarquias, instituições particulares de solidariedade social, unidades de saúde e outros organismos públicos, deixando a GNR, assim, de ser apenas uma entidade que identifica problemas para assumir também um papel ativo na mobilização de soluções.
Outro dos aspetos que mais contribuiu para a valorização da imagem institucional foi a crescente especialização dos seus recursos humanos, porque a complexidade dos fenómenos criminais contemporâneos exige conhecimento técnico, formação permanente e capacidade de adaptação, onde a violência doméstica, o abuso sexual de menores, a cibercriminalidade e as burlas praticados através das novas tecnologias são realidades que requerem competências específicas e uma abordagem diferenciada.
A aposta na formação especializada permitiu que os militares da GNR fossem reconhecidos não apenas pela autoridade legal que representam, mas também pelo conhecimento técnico que possuem, verificando-se que hoje, o cidadão espera encontrar um profissional preparado para esclarecer, orientar e apoiar, e quando encontra essa competência, estabelece-se uma relação de respeito mútuo que fortalece a legitimidade da instituição.
A confiança que hoje a população deposita na GNR não resulta de campanhas de imagem nem de estratégias de marketing institucional, mas sim, sobretudo, da consistência de um trabalho desenvolvido diariamente no terreno, muitas vezes longe dos holofotes mediáticos, resultando da capacidade de ouvir, compreender e responder às necessidades concretas das pessoas, cuja a força da GNR continuará a residir na sua proximidade às populações.
É precisamente nessa ligação humana, construída ao longo das últimas décadas, que reside a verdadeira essência da instituição, que como força de natureza militar, firme nos seus princípios, mas profundamente comprometida com as pessoas que serve, sendo uma GNR que protege sem se afastar, que exerce autoridade sem perder humanidade e que continuará a afirmar-se como um dos mais sólidos pilares de confiança da sociedade portuguesa.
Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.



