A revolta por ter sido colocado no lar, associado a problemas do foro psiquiátrico, terão estado na origem da atitude violenta perpetrada na noite de sábado, pelo utente da instituição de Garvão, onde estava havia cerca de dez horas.
Segundo apurou o Lidador Notícias (LN), o homem de 92 anos, residia no Monte Saraiva, no concelho de Ourique, terá dado entrada no lar cerca da hora de almoço daquele dia, não existindo qualquer tipo de animosidade com as três vítimas que foram atacadas, uma das quais viria a morrer no Hospital de Beja.
O alerta foi dado às 22,30 horas, relatando a existência de quatro vítimas, dois homens feridos graves, de 68 e 97 anos, e uma mulher com ferimentos ligeiros, de 90 anos e, o agressor, que foram conduzidos para o Serviço de Urgência do Hospital de Beja, tendo este último sido internado compulsivamente no Serviço de Psiquiatria.
O agressor arrancou um ferro da casa de banho de pessoas com deficiência e atacou violentamente os outros residentes da instituição, com os quais não teria qualquer tipo de relacionamento tendo em conta o pouco tempo que tinha de estar no lar.
A GNR deslocou-se de imediato para o local e tomado conta da ocorrência, cuja investigação com a morte de uma das vítimas passou para a alçada da Diretoria de Faro da Polícia Judiciária, cujos inspetores estiveram na instituição a fazer a recolha de provas.
Ao que o LN apurou, o lar estava a funcionar sem licença da Segurança Social, a quem já tinha sido solicitada, mas que não tinha sido ainda concedida, o que originou uma participação ao Ministério Público e ao Tribunal de Ourique, mas sem qualquer resposta. O lar tinha sido encerrado em agosto de 2023, com outra gerência, propriedade da entidade Fiel Santos Cardoso Unipessoal, do médico Miguel Santos Cardoso.
Em março do ano passado o lar foi alugado por Sérgio Delgado, vereador da Câmara de Castro Verde (CDU), que há alguns anos foi também membro da Assembleia Municipal de Vidigueira, e possui uma outra instituição em Rosário, concelho de Almodôvar. Em resultado de um processo de falência o edifício foi recentemente adquirido pelo Crédito Agrícola, desconhecendo-se se a escritura já foi realizada
Ontem, após o conhecimento da situação elementos da Segurança Social de Beja deslocaram-se a Garvão a fim de transferir as cerca de três dezenas de utentes para outras instituições, tal como ocorreu em 2023 quando aquela foi encerrada na altura gerida pela anterior empresa Fiel Santos Cardoso Unipessoal.
Ouvido pelo LN, Sérgio Delgado, o arrendatário do lar, foi parco em palavras referindo que “estamos muito em cima dos acontecimentos e há que aguardar o desenrolar da situação. Estou a deslocar-me para Garvão acompanhado do meu advogado”, justificou. Ao final da tarde de domingo, a mulher já tinha tido alta hospitalar, enquanto que o homem continuava em observação no Serviço de Urgência do Hospital de Beja, não correndo risco de vida.
No socorro às vítimas estiveram 13 operacionais dos Bombeiros Voluntários de Ourique, VMER de Beja, SIV de Castro Verde e GNR, apoiados por sete viaturas, a que depois se juntaram os inspetores da PJ que assumiram a liderança da investigação.
Inaugurada por Carlos Moedas
O espaço foi inaugurado como Unidade de Cuidados Continuados em 18 de dezembro de 2012, pelo então secretário de estado adjunto do Primeiro-ministro, Carlos Moedas, com um investimento superior a um milhão de euros, tendo a Administração Regional de Saúde do Alentejo comparticipado com 721.552,90 euros.
Desvio de dinheiro
Em março de 2020, um casal, ela funcionária e ele diretor da Futuro de Garvão-Associação de Solidariedade Social, assumiram a existência de um desfalque financeiro nas contas da instituição, que geria a Unidade de Cuidados Continuados (UCC), Centro de Dia e Apoio Domiciliário. O caso foi despoletado na sequência da aquisição da UCC por parte da Fiel Santos Cardoso (FSC)-Serviços de Saúde do Alentejo e, com a escritura da aquisição da unidade, temendo ser descobertos, acompanhados de uma advogada, o casal dirigiu-se à associação e assumiu a autoria do desvio, superior a 100 mil euros, que se comprometeram a repor.
Nova gestão, mas problemas continuaram
No início de 2022 a FSC decidiu fazer um investimento avultado (1,5 milhões de euros) e gerir diretamente a infraestrutura. Depois da reabertura, o novo gestor manteve o protocolo com a rede nacional de cuidados continuados, mas, em março de 2023, denunciou o acordo. Seis meses passados o espaço foi encerrado. Ainda há decorrer processos judiciais movidos por antigos trabalhadores.
Teixeira Correia
(jornalista)


