A liderança é um dos temas mais estudados e debatidos em contextos organizacionais, sejam empresariais, políticos ou militares, sendo a forma como um líder exerce influência sobre os seus liderados, que determina, em grande parte, o sucesso ou fracasso de uma equipa ou instituição e do próprio líder.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
O tema da liderança já foi aqui abordado no LN no dia 26 de março de 2025, no artigo com o título “O líder militar: da estratégia à humanidade”, onde se identificaram “quais as características que definem um líder militar eficaz e como as mesmas influenciam o sucesso da missão e do moral dos seus subordinados”, pelo que o tema do presente artigo é sobre o estilo de liderança que surgem como opostos simbólicos, de entre os vários estilos de liderança, a liderança pelo medo e a liderança pelo exemplo.
Ambas têm sido aplicadas ao longo da história em organizações militares, empresas ou governos, embora nenhuma seja absoluta ou universal, a forma como cada uma afeta o comportamento humano, a motivação e os resultados finais, levantado, por isso, a questão de saber qual é a mais eficaz.
A liderança pelo medo assenta na imposição da autoridade, muitas vezes associada a um modelo hierárquico rígido, onde o líder procura alcançar obediência e resultados através da intimidação, da ameaça de punições ou da criação de um clima de constante pressão.
Historicamente, este estilo foi amplamente utilizado em contextos militares, industriais e políticos, sobretudo em períodos de crise ou guerra, quando a disciplina e a ordem eram vistas como valores absolutos.
As vantagens da liderança pelo medo são a rapidez na execução, sendo que em situações de emergência, a obediência imediata pode ser crucial e o medo leva a uma ação rápida, evitando debates prolongados, a clareza hierárquica onde todos sabem quem manda e o que se espera, sendo que uma estrutura rígida pode facilitar decisões em contextos complexos e resultados imediatos, porque em tarefas de curto prazo, pode gerar disciplina e cumprimento de objetivos básicos.
As desvantagens da liderança pelo medo são a criação de um clima organizacional tóxico, gerando ansiedade, desmotivação e baixa moral, a falta de criatividade, porque os colaboradores evitam arriscar ou propor ideias, com medo de represálias, a alta rotatividade, tendo em conta que os melhores talentos procuram sair, restando apenas quem não tem alternativas, e efeitos de curto prazo, porque dificilmente se sustenta a longo prazo, pois desgasta emocionalmente todos os envolvidos, incluindo o próprio líder.
A liderança pelo medo, portanto, pode ser eficaz em situações pontuais de crise, mas tende a corroer a confiança e a lealdade, cuja imagem pública é distante e autoritária.
Em contraste, a liderança pelo exemplo baseia-se na inspiração, na coerência e na credibilidade, onde o líder não apenas ordena, mas mostra, pela sua própria conduta, os valores e comportamentos que espera da equipa, liderando através da confiança, da proximidade e da integridade.
Este estilo é frequentemente associado a líderes carismáticos e transformacionais, que conseguem mobilizar equipas em torno de um propósito comum, sendo o modelo predominante nas organizações modernas, que valorizam inovação, motivação e desenvolvimento humano.
As vantagens da liderança pelo exemplo são a motivação intrínseca, porque os liderados sentem-se inspirados e não apenas obrigados, a criação de um clima de confiança, ao fomentar a lealdade, a cooperação e o espírito de equipa, uma maior inovação, tendo em conta que ambientes seguros incentivam a partilha de ideias e soluções criativas, e a sustentabilidade a longo prazo ao criarem-se bases sólidas para equipas coesas e produtivas, revelando uma imagem pública próxima e respeitável.
Nas desvantagens da liderança pelo exemplo, encontram-se a exigência de mais tempo, porque os resultados não são imediatos, pois é preciso cultivar confiança e coerência, a dependência da integridade do líder, porquanto se o líder falhar, o impacto na equipa é profundo, e nem sempre eficaz em crises, uma vez que em situações de emergência, a inspiração pode não substituir a necessidade de ordens claras e rápidas.
Assim, a liderança pelo exemplo fortalece equipas a médio e longo prazo, exigindo consistência e paciência.
Pelo que a liderança pelo exemplo deverá ser aplicada em instituições militares, onde a disciplina rígida ainda exige, em certos momentos, ordens firmes e cumprimento imediato, mas a motivação e coesão das tropas são mais eficazes quando os comandantes lideram pelo exemplo, assim como nas instituições empresariais, nomeadamente com ambientes inovadores, como startups ou tecnológicas, que prosperam com líderes inspiradores.
A liderança pelo medo e a liderança pelo exemplo representam duas formas antagónicas de exercer poder, sendo que a primeira garante resultados rápidos, mas à custa da confiança e da motivação e a segunda constrói equipas resilientes, inovadoras e leais, mas exige tempo, consistência e integridade.
O mundo contemporâneo, caracterizado pela necessidade de inovação, bem-estar organizacional e retenção de talento, favorece claramente a liderança pelo exemplo, onde a liderança pelo medo dificilmente constitui um modelo sustentável, sendo o grande desafio para os líderes modernos saber ser coerente, inspirador e digno de confiança, pelo que no final, liderar não é apenas mandar, mas sim transformar pessoas e organizações, deixando uma marca positiva que sobreviva ao próprio líder, concluindo-se que quem escolhe liderar pelo medo não deixa saudades.
Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.



