“Se o treinador não tem uma estratégia, os jogadores não sabem como jogar e a equipa técnica não sabe o que preparar”. A metáfora é simples, tão simples que, por vezes, é ignorada nas organizações, e talvez seja exatamente aí que reside o problema, ao complicarem excessivamente aquilo que deveria ser elementar, definir um rumo claro antes de exigir resultados extraordinários.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
Num clube de futebol, ninguém imagina uma equipa entrar em campo sem um plano de jogo, não fazendo sentido pedir intensidade sem organização, velocidade sem direção ou resultados sem preparação, porque o treinador analisa o adversário, identifica fragilidades, define prioridades, comunica funções e cria alinhamento, e a partir daí, cada elemento sabe o que fazer, quando fazer e porquê fazer.
Nas organizações deveria acontecer o mesmo, mas nem sempre é assim.
Há organizações onde as equipas trabalham muito, mas avançam pouco, reúnem constantemente, produzem relatórios intermináveis, multiplicam tarefas, mas permanecem presas a uma sensação coletiva de desorientação, existindo movimento, mas não uma verdadeira progressão, tal como uma equipa que corre durante noventa minutos sem perceber qual é a baliza certa para marcar golo.
A origem desta descoordenação raramente está na falta de competência dos colaboradores, sendo que na maioria dos casos, o problema nasce antes, na ausência de liderança estratégica capaz de identificar necessidades concretas e transformá-las em objetivos claros.
Quando a liderança não define prioridades, instala-se a ambiguidade, sendo isso um dos maiores desperdícios dentro de qualquer organização.
As pessoas começam a interpretar em vez de executar, criando os departamentos versões próprias da estratégia e estabelecendo cada equipa critérios diferentes de sucesso, prometendo o comercial aquilo que a operação não consegue entregar, comunicando o marketing mensagens desalinhadas com a realidade do produto, recrutando os recursos humanos perfis que não respondem aos desafios reais da
empresa, e, lentamente, a organização transforma-se num conjunto de esforços individuais sem verdadeira convergência coletiva.
Tal como no futebol, uma equipa desalinhada dificilmente vence.
A liderança estratégica não consiste apenas em motivar pessoas ou apresentar discursos inspiradores, onde liderar é, antes de tudo, criar clareza, é identificar necessidades reais antes de propor soluções aparentes, porque nenhuma solução funciona verdadeiramente quando resolve o problema errado, sendo este ponto decisivo.
Muitas organizações vivem obcecadas com soluções rápidas, querendo inovação sem diagnóstico, transformação digital sem perceber bloqueios operacionais, aumento de produtividade sem compreender causas de desmotivação, melhor comunicação sem reconhecer falhas de liderança e formar equipas sem identificar lacunas específicas de competência.
É como uma equipa técnica que começa a distribuir suplementos, equipamentos e tecnologia avançada sem que o treinador tenha sequer explicado como a equipa pretende jogar.
Sem diagnóstico, qualquer solução é apenas uma tentativa aleatória de parecer competente.
As organizações mais maduras entendem que a identificação das necessidades não é um detalhe operacional, sendo o ponto de partida da estratégia, porque antes de decidir para onde ir, é preciso compreender onde estamos, o que nos falta e o que verdadeiramente condiciona os resultados.
Isso exige capacidade de observação, de escuta e humildade estratégica.
Porque muitas vezes os líderes acreditam conhecer os problemas sem nunca terem ouvido verdadeiramente as equipas, decidindo à distância, interpretando indicadores sem interpretar pessoas, acabando por construir soluções tecnicamente sofisticadas, mas emocionalmente desligadas da realidade organizacional, cuja a consequência é previsível, resistência, desperdício e frustração.
Quando as necessidades não são corretamente identificadas, as soluções tornam-se cosméticas, porque resolvem sintomas, mas não causas, porque produzem entusiasmo inicial, mas não transformação sustentada.
E aqui regressamos à metáfora do treinador.
Um treinador competente não começa pelo discurso motivacional, começa pela leitura do jogo, observa comportamentos, avalia limitações, percebe dinâmicas, identifica oportunidades e só depois define estratégia, porque a preparação técnica existe para responder a necessidades concretas do jogo e da equipa.
Nas organizações, a lógica deveria ser exatamente igual.
A estratégia não pode nascer de modas de gestão nem de tendências copiadas de outras organizações, devendo nascer da realidade específica da organização, das suas pessoas, da sua cultura, das suas limitações e das suas ambições.
Liderar é interpretar o contexto.
E talvez seja precisamente essa capacidade que separa líderes operacionais de líderes verdadeiramente estratégicos, onde os primeiros gerem tarefas e os segundos criam direção.
Quando existe direção clara, tudo ganha coerência, porque as equipas compreendem prioridades, os recursos são melhor utilizados, as decisões tornam-se mais rápidas, os conflitos diminuem, a comunicação melhora e, acima de tudo, as pessoas deixam de trabalhar apenas para cumprir funções e começam a trabalhar para concretizar objetivos comuns.
A clareza estratégica produz alinhamento e o alinhamento produz confiança.
Numa equipa de futebol, os jogadores sentem-se mais seguros quando conhecem o plano de jogo, mesmo perante dificuldades, existe referência coletiva, identidade e intenção.
Nas organizações acontece o mesmo, porque as pessoas toleram pressão, mudança e exigência quando percebem propósito e direção, sendo o que destrói a motivação não é o esforço é a confusão.
Por isso, uma liderança eficaz não começa por perguntar “qual é a solução?”, mas sim por perguntar “qual é verdadeiramente a necessidade?”.
A diferença parece pequena, mas muda tudo.
Porque só depois de identificar corretamente necessidades é possível desenhar soluções ajustadas, mobilizar equipas de forma inteligente e construir estratégias capazes de produzir resultados consistentes, porque sem isso, a organização entra em campo sem estratégia e quando ninguém sabe exatamente como jogar, até os profissionais mais talentosos acabam por parecer perdidos.
Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.



