As previsões meteorológicas para os próximos dias não deixam margem para dúvidas. Portugal prepara-se para enfrentar uma cúpula de calor que poderá fazer disparar os termómetros para valores superiores aos 40ºC em várias regiões do país, cujos os cenários mais extremos admitem valores próximos dos 43ºC a 45ºC, particularmente no interior, pelo que a persistência de uma massa de ar muito quente e seca, associada a condições atmosféricas estáveis, criará um cenário propício ao aumento significativo do perigo de incêndio rural.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
Perante estas condições, a atenção pública concentra-se habitualmente nos meios de combate, nomeadamente quantos bombeiros estão disponíveis, quantos meios aéreos foram mobilizados, quantas equipas integram o dispositivo nacional, sendo questões legítimas, contudo, a experiência operacional demonstra que a verdadeira diferença se faz muitas vezes antes do combate. Faz-se na vigilância.
Os procedimentos para vigilância, primeira intervenção, apoio ao combate, rescaldo e vigilância pós-incêndio constituem um sistema integrado onde cada fase depende da eficácia da anterior, pelo que quando a vigilância falha, aumenta a probabilidade de ocorrer uma ignição não detetada e quando a deteção é tardia, o combate torna-se mais difícil e quando o combate se prolonga, aumentam os riscos para pessoas, bens e ecossistemas.
Por isso, numa semana marcada por uma cúpula de calor e por índices meteorológicos particularmente preocupantes, importa refletir sobre duas ferramentas fundamentais da prevenção operacional: a vigilância armada e o patrulhamento.
A vigilância armada constitui uma das mais inteligentes medidas de antecipação existentes no dispositivo de defesa da floresta contra incêndios, cujo o conceito é simples, mas a sua eficácia está amplamente demonstrada.
Consiste no posicionamento de veículos de combate a incêndios rurais, devidamente atestados de água, guarnecidos e equipados para intervir de imediato, em locais estrategicamente selecionados, denominados Locais Estratégicos de Estacionamento (LEE), de acordo com o risco existente.
Não se tratando por isso de esperar por uma ocorrência no quartel, mas sim de levar os meios para junto das áreas onde existe maior probabilidade de surgirem incêndios.
A diferença pode parecer pequena, mas operacionalmente é enorme.
Numa semana em que as temperaturas irão ultrapassar os 40ºC, a humidade relativa do ar desce para níveis muito reduzidos e o combustível vegetal apresenta extrema secura,
poucos minutos podem determinar se estamos perante uma ignição rapidamente dominada ou perante um incêndio com potencial para assumir grandes proporções.
A vigilância armada procura precisamente ganhar esses minutos, enquanto outros meios ainda se encontram em deslocação, as equipas pré-posicionadas já estão próximas da ocorrência, prontas para atuar, sendo uma estratégia baseada na antecipação e não apenas na reação.
Mas a vigilância armada necessita de ser complementada pelo patrulhamento, porque o patrulhamento representa os olhos do dispositivo no terreno, podendo este patrulhamento ser realizado por equipas de qualquer agente de proteção civil.
As equipas que percorrem caminhos florestais, estradas municipais, áreas agrícolas e zonas de interface urbano-florestal desempenham uma missão que vai muito além da simples presença operacional, sendo elas que identificam comportamentos de risco, detetam situações potencialmente perigosas, sensibilizam populações e, muitas vezes, localizam os primeiros sinais de uma ignição.
A deteção precoce continua a ser uma das mais importantes armas no combate aos incêndios rurais.
Um foco de incêndio identificado nos primeiros minutos apresenta uma probabilidade incomparavelmente superior de ser dominado com sucesso e pelo contrário, uma ignição que permanece sem deteção durante algum tempo pode rapidamente transformar-se numa emergência de grande dimensão e a história dos incêndios rurais em Portugal demonstra precisamente isso.
Muitas das ocorrências mais gravosas tiveram em comum uma rápida propagação inicial favorecida pelas condições meteorológicas extremas, sendo exatamente esse cenário que se poderá repetir sempre que uma cúpula de calor se instala sobre o território nacional, verificando-se que o ar quente e seco acumulado durante vários dias favorece temperaturas excecionalmente elevadas e aumenta significativamente o potencial de propagação do fogo.
Por essa razão, a vigilância armada e o patrulhamento não devem ser vistos como missões secundárias, sendo na verdade, uma das mais importantes linhas de defesa da floresta portuguesa.
Muitas vezes, os maiores sucessos do dispositivo nacional não chegam ao conhecimento da opinião pública, porque não aparecem nas aberturas dos telejornais nem ocupam as primeiras páginas dos jornais e esses são os incêndios que não chegaram a crescer, porque as ignições foram dominadas nos primeiros minutos e as situações de risco corrigidas antes de produzirem consequências.
Também não são notícia os quilómetros percorridos pelas patrulhas e as horas de permanência das equipas em vigilância armada que impediram que uma coluna de fumo se transformasse numa tragédia.
Quando as temperaturas sobem para níveis extremos, a floresta entra numa situação de elevada vulnerabilidade e nesses momentos, não basta ter capacidade para combater, sendo necessário ter capacidade para antecipar, permitindo a vigilância armada aproximar os meios do risco e o patrulhamento a vigilância do território.
Juntos, representam uma resposta operacional inteligente, assente na experiência adquirida ao longo de décadas de combate aos incêndios rurais, porque quando uma cúpula de calor se instala e o perigo aumenta, a proteção da floresta não começa com as chamas, começa muito antes, na vigilância, no patrulhamento e na antecipação, sendo precisamente aí que se decide, muitas vezes, o sucesso de toda a operação ou mesmo de todo o ano, no que diz respeito a incêndios rurais.
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