Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) rompe confiança com Governo e convoca reunião extraordinária em plena crise agrícola. Luís Mira acusa o Executivo de ter deixado os agricultores sem uma resposta adequada à escalada dos custos de produção. O Governo anunciou, entretanto, um novo pacote de 40 milhões de euros para fertilizantes e energia.
A CAP endureceu o discurso contra o Governo, considerando quebrada a relação de confiança com o Executivo num momento de forte pressão sobre os custos de produção agrícola. A estrutura representativa do setor convocou ainda uma reunião extraordinária do Conselho de Presidentes para segunda-feira, perante aquilo que considera ser a falta de apoios suficientemente robustos para responder à atual situação.
A posição mais dura foi assumida pelo secretário-geral da CAP, Luís Mira, num artigo de opinião publicado pela confederação a 23 de setembro, no qual acusa o Governo de ter demorado a responder ao aumento dos preços dos combustíveis e fertilizantes.
“Infelizmente, quebrou-se a confiança neste Governo”, escreve Luís Mira, depois de recordar que o atual Executivo chegou ao poder, segundo afirma, com o “apoio explícito” dos agricultores e da própria CAP.
No centro da contestação está a evolução dos custos de produção desde março.
Segundo Luís Mira, o Governo apenas anunciou em setembro um apoio de 10 cêntimos aos combustíveis, com retroatividade a 30 de junho, uma resposta que a CAP considera tardia face às dificuldades enfrentadas pelos produtores.
O dirigente estabelece uma comparação direta com Espanha, onde, de acordo com os números apresentados pela CAP, os agricultores beneficiam de medidas de apoio desde março, posteriormente reforçadas.
CAP aponta diferença nos apoios aos fertilizantes
A maior divergência apontada pela confederação surge nos fertilizantes.
Luís Mira refere que Espanha mobilizou 650 milhões de euros para este efeito, enquanto Portugal concedeu 20 milhões. Recorda ainda que o anterior Governo socialista, apesar das críticas que então recebeu da CAP, atribuiu 180 milhões de euros.
A organização agrícola considera também que a aposta espanhola na criação de capacidade interna de produção de fertilizantes poderá acentuar as diferenças de competitividade entre os produtores dos dois países.
As críticas estendem-se aos mecanismos europeus de financiamento. Luís Mira afirma que Portugal não irá utilizar integralmente a possibilidade de complementar com verbas nacionais determinados instrumentos comunitários destinados ao setor.
De acordo com o secretário-geral da CAP, os mecanismos permitem que uma componente financiada integralmente pela União Europeia seja complementada pelos Estados-Membros até 200% do montante comunitário atribuído.
Para a CAP, a decisão portuguesa deixa os produtores nacionais em desvantagem perante agricultores de outros países europeus.
No mesmo dia em que foi publicada a posição de Luís Mira, o Ministério da Agricultura e Mar anunciou um novo pacote de 40 milhões de euros destinado a compensar os produtores afetados pelo aumento dos preços dos fertilizantes e da energia.
A nova verba acresce aos 20 milhões de euros de um apoio anterior que, segundo o Ministério da Agricultura e Mar, foi integralmente pago em julho.
A tutela sustenta ainda que os pagamentos efetuados pelo Ministério ao setor agrícola deverão superar os mil milhões de euros até ao final de setembro.
A resposta governamental não travou, contudo, a contestação da CAP.
A confederação convocou para segunda-feira uma reunião extraordinária do seu Conselho de Presidentes, órgão que reúne dirigentes das associações dos setores agrícola, florestal e pecuário, tendo como ponto central a crise provocada pelo aumento dos fatores de produção.
O confronto entre a maior organização representativa dos agricultores portugueses e o Executivo entra, assim, numa nova fase, com a CAP a colocar agora em causa a relação de confiança política com o Governo, enquanto a tutela contrapõe com novos apoios financeiros ao setor.
Fontes: Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), artigo de opinião “Confiança quebrada entre agricultores e Governo”, de Luís Mira, publicado em 23 de setembro de 2026; Ministério da Agricultura e Mar.


