Há relações improváveis que, à primeira vista, parecem quase paradoxais, sendo uma delas a ligação entre o aumento do preço dos combustíveis e a segurança rodoviária, verificando-se que sempre que o preço da gasolina e do gasóleo aumentam, frequentemente por motivos geopolíticos ou crises internacionais, a sinistralidade rodoviária diminui.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
Sempre que ocorrem crises económicas, a preocupação pública centra-se, naturalmente, no impacto económico sobre as famílias e as empresas, no entanto a história recente mostra que os aumentos dos combustíveis podem produzir um efeito secundário inesperado, que é a redução da sinistralidade rodoviária.
Não se trata de um fenómeno intuitivo, mas os dados recolhidos ao longo das últimas décadas sugerem que existe uma relação consistente entre o custo de circular e o risco nas estradas, pelo que quando conduzir se torna mais caro, as pessoas tendem a conduzir menos, e menos quilómetros percorridos significam, inevitavelmente, menos exposição ao risco.
A crise financeira global de 2008 constitui um dos exemplos mais evidentes deste fenómeno, sendo que naquele período, o preço do petróleo atingiu níveis historicamente elevados, provocando um aumento abrupto do preço dos combustíveis em muitos países, tendo paralelamente, diversos estudos, verificado uma diminuição significativa do número de acidentes rodoviários e de vítimas mortais, apesar da recessão económica também ter contribuído para a redução da mobilidade, a subida do custo dos combustíveis foi identificada como um fator importante na alteração dos padrões de deslocação.
Algo semelhante ocorreu em 2022, quando a invasão da Ucrânia provocou um choque energético global, tendo o preço dos combustíveis subido rapidamente em grande parte da Europa, verificando-se em vários países, que os primeiros meses dessa escalada coincidiram com reduções temporárias no volume de tráfego e, em alguns casos, com uma descida nos acidentes rodoviários, concluindo-se mais uma vez, que a explicação parece residir num princípio simples, quando cada quilómetro custa mais, cada viagem passa a ser ponderada com maior cuidado.
Este efeito manifesta-se de duas formas principais, sendo a primeira quantitativa, onde as pessoas conduzem menos, trocando pequenas deslocações, que antes eram feitas de automóvel, passam a ser substituídas por transporte público, por deslocações a pé ou simplesmente deixam de acontecer e as viagens não essenciais são adiadas ou agrupadas, pelo que em termos estatísticos, a exposição ao risco diminui.
A segunda é comportamental, porque quando o combustível encarece, muitos condutores passam a adotar estilos de condução mais eficientes para reduzir o consumo, adotando a chamada condução económica ou “eco-condução”, conforme denominada pelo ACP, que implica acelerações mais suaves, maior antecipação do trânsito e velocidades mais moderadas, sobretudo em autoestrada, sendo curioso, que estes mesmos comportamentos são também características de uma condução mais segura.
A velocidade, como sabemos, continua a ser um dos principais fatores de risco na sinistralidade rodoviária, pelo que qualquer elemento que contribua para reduzir velocidades médias, mesmo que indiretamente, pode produzir efeitos positivos na segurança, verificando-se que conduzir a 110 km/h em vez de 130 km/h não reduz apenas o consumo de combustível, como também reduz a energia envolvida numa eventual colisão e aumenta o tempo de reação do condutor.
Há ainda um terceiro mecanismo possível, menos visível, mas igualmente relevante, sugerindo alguns estudos que os aumentos no preço dos combustíveis afetam de forma mais acentuada certos grupos de condutores, nomeadamente os mais jovens e com menos recursos económicos, contatando-se que estes grupos, estatisticamente associados a maiores níveis de risco rodoviário, podem reduzir mais significativamente a sua exposição quando os custos de condução aumentam, cujo o resultado global pode traduzir-se numa diminuição proporcionalmente maior de acidentes graves.
Convém, no entanto, evitar conclusões simplistas, onde o preço dos combustíveis não é, nem deve ser, uma política de segurança rodoviária, cujo o impacto na sinistralidade é indireto e geralmente moderado e além disso, esse efeito tende a ser temporário, pelo que com o passar do tempo, as pessoas adaptam-se aos novos preços e os padrões de mobilidade regressam gradualmente aos níveis anteriores.
A segurança nas estradas depende sobretudo de fatores estruturais, nomeadamente a qualidade das infraestruturas, a fiscalização eficaz, a tecnologia dos veículos, a educação rodoviária e a políticas públicas consistentes, pelo que sistemas de assistência à condução, limites de velocidade adequados, campanhas de prevenção e fiscalização do álcool ou da velocidade continuam a ser os instrumentos mais eficazes para reduzir acidentes.
Ainda assim, estes episódios recordam-nos algo importante sobre o comportamento humano na estrada, onde muitas decisões de condução não são apenas determinadas por regras ou campanhas educativas, são também influenciadas por incentivos económicos, nomeadamente quando o custo de cada viagem aumenta, a mobilidade torna-se mais racional e, por vezes, mais prudente.
É um paradoxo curioso, quando uma crise energética pode produzir, de forma indireta, um pequeno ganho em segurança rodoviária, não porque as estradas se tornem mais seguras por si mesmas, mas porque os condutores, confrontados com novos custos, passam a utilizá-las de forma ligeiramente diferente.
No fundo, a estrada reflete sempre a sociedade que a utiliza e quando o preço do combustível sobe, aquilo que muda não é apenas o valor que pagamos na bomba, muda também, ainda que discretamente, a forma como decidimos circular.
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