Alentejo: Silarcas são o “ouro branco dos montados”, apanham-se às centenas.


São mais de 3000 as espécies de cogumelos que estão registados em Portugal. No Alentejo, o Amanita Ponderosa, vulgarmente chamado de silarca, é a qualidade predominante de cogumelo.

Nas florestas de sobros dos montados alentejanos, escondidos debaixo de silos terrosos, escondidos debaixo de pequenos de onde rebentam, nascem de formam selvagem e carregados de terra. A humidade, transmitida por invernos com chuva, entrecortada com o sol, fazem-nos nascer a rodos.

Os concelhos de Beja, Mértola e Portel, são os verdadeiros “santuários” das silarcas, sendo que na Serra de Portel e nas cercanias de Alqueva, são autênticas “rodas de automóveis”. Apesar de este ser um ano de “grande produção”, dadas as conjugações climatéricas, o preço do quilo do cogumelo/silarca, é de 20 euros. Muitos são aqueles que praticam a arte de apanhar o chamado “ouro branco dos montados”.

Um dos pontos mais procurados no concelho de Beja é o Campo de Instrução e Carreira de Tiro Militar, uma propriedade do Exercito, localizada a sul da freguesia de Santa Clara de Louredo e a norte de Cabeça Gorda, um espaço aberto povoado com uma densa mata de sobreiros.

João Ferro, 60 anos, enfermeiro reformado da GNR, desde gaiato que se dedica à apanha de cogumelos, vivência que aprendeu com o progenitor, em Serpa, terra que o viu nascer. Há alguns anos a esta parte que Maria José, a esposa, é companheira insuperável na apanha.

“É uma paixão e um gozo. Vivo da reforma e a venda a amigos e particulares, são uma ajuda para as despesas diárias”, diz João Ferro. A época começa em janeiro, mas a partir de meados de fevereiro e o mês de março “são os melhores”, justificando que conhece os cogumelos “pelo cheiro, textura e por “análise” dos verdadeiros apanhadores”, justifica.

“Quem me conhece, sabe que vou todos os dias apanhar. É material de grande qualidade e de confiança”, justificando que “há em que se podem apanhar 5/6 quilos, o que é muito bom”, deixando uma frase para a apanha “onde o sol castiga mais é onde há cogumelos”, remata.

Quanto a recordes, João Ferro lembra que “em 1995, em Espanha apanhei 18 quilos. O maior cogumelo que tinha 1,150 quilos foi na Cabeça de Ferro, há meia dúzia de aos”, concluiu.

Para tornar a apanha mais fiável defende que “deveria existir uma entidade que certificasse que os apanhadores”, lembra a mulher que “não vão para o nosso cesto sem ser certificado pelo Ferro”, concluem.

Na ligação com os concelhos de Vidigueira e Moura, mas já no distrito de Évora, Portel é apontada como a “Capital da Silarca”, dadas as quantidades e a dimensão que esta espécie da família de fungos atinge. No concelho este é apontado como um ano “atípico” tendo em conta as excelentes condições meteorológicas, para o crescimento e apanha das silarcas.

A taberna “O Cantinho do Bilhau”, é o local onde mais silarcas se comem durante a época, é apontada como “Catedral da Silarca”. Muitos são os clientes que apanham e pedem a Maria Gertrudes, a dona do espaço e mulher de José Domingos, de 60 anos, e conhecido pela alcunha do “Bilhau”, para grelhar. À porta da taberna há um pequeno grelhador a carvão onde os comensais podem grelhar as suas silarcas.

Há meio século que José Domingos vai para o campo apanhar “o ouro branco do montado”. “Aprendi com o meu pai e foi um vício que nunca mais deixei”, diz o trabalhador agrícola, que agora tem que aproveitar os fins-de-semana.

“Nesta altura há mais silarcas nas zonas soalheiras, depois nas zonas mais “aviceiras” (mais frias), mas este é um dos melhores anos da última década”, justificando que vai para o campo “sem horas marcadas, as silarcas é que esperam pelo apanhador”, remata.

As últimas safras têm valido 10/12/15 quilos por dia e um quilo custa 20 euros. “Vou apanhar por dois motivos: porque a família é grande e todos comem e para ter ser petisco na taberna”, justificando que como o espaço é frequentado por clientes que são grandes amigos, “fazemos como os vizinhos espanhóis, com uma rodada oferecemos como petisco. Não comprando, pode-se oferecer”, revela o “Bilhau”.

Ainda assim reconhece que em Portel há muitos apanhadores, uns para consumo próprio e outros para venderem e conseguir mais “uns cobres” e ter uma vida “mais desafogada”, sustenta.

António Navalhas, “Caboca”

Condutor da Câmara e cantador do Grupo “Estrelas do Sul”, ambos em Portel, “Caboca”, foi no último sábado apanhar silarcas e trouxe mais de 20 quilos. “Há muito que não via tantas. Apanho para casa e para os petiscos com malta do grupo. Arranjo e congelo, tenho para o ano inteiro. Dá para tudo. Assadas, com ovos mexidos, com borrego, em sopas de pão. Ao preço que se vendem, poupo dinheiro de duas maneiras: não as comprando e evito comprar outros acompanhamentos.”

Silarca-Festival do Cogumelo em Cabeça Gorda (Beja)

Para celebra os recursos silvestres da região, Cabeça Gorda, a 12 quilómetros de Beja, celebra de sexta-feira a domingo a VI edição da Silarca-Festival do Cogumelo, uma organização da Junta de Freguesia, a que se juntam os espargos, tengarrinhas, agriões e poejos.

Na praça central da aldeia, a chamada “Tenda Micológica”, tem espaço para receber 200 pessoas sentadas e oito restaurantes/tasquinhas temáticos, onde se podem degustar os cogumelos com ovos, assados com poejos e sal, no ensopado de borrego, com carne de caça e com o peixe do rio. Nas ruas muitos são as tendas de vendedores de cogumelos, portugueses e espanhóis.

Cante alentejano, espetáculos musicais, animação de rua, exposições, wokshops, showccokings e ainda dois passeios micológicos para aprender a apanhar e identificar cogumelos, seguido de um almoço micológico.

O humorista Bruno Ferreira, é o embaixador do certame, justifica que o certame “marca pela positiva a vida da freguesia atraindo muitas centenas de visitantes”, acrescentando que é uma “grande jornada de vitalidade, convívio e fraternidade, ao mesmo tempo que defesa e preservação do que melhor que a região tem”, justifica.

Teixeira Correia

(jornalista)


Share This Post On
468x60.jpg