Opinião (José Lúcio/ Juiz): Ainda a confiança na Justiça.


Segundo um conhecido aforismo as coisas repetidas agradam (bis repetita placent). Suspeito que nem sempre isso aconteça, e receio que muitas repetições aborreçam. Ainda assim, vou regressar ao tema da confiança na justiça.

José Lúcio

(Juiz Presidente da Comarca de Beja)

Em artigo anterior interrogava-me sobre a relevante questão: em que medida as gentes da Justiça, leia-se todos os profissionais que exercem a sua actividade na vasta área assim genericamente designada, podem eficazmente contribuir para a melhoria da imagem instalada nos seus concidadãos, e por essa via criar confiança na administração da Justiça?

Centrei então a minha atenção na necessidade, que me parece óbvia e imperativa, de marcar presença e garantir visibilidade nos meios de comunicação social, incluindo o vasto mundo das redes sociais, instrumentos fundamentais e decisivos na formação das imagens absorvidas pelo público destinatário.

Mas, para além dessa abertura ao exterior, de forma a familiarizar e criar laços de empatia com temática que normalmente surge como estranha e hermética para a generalidade dos concidadãos, que poderão fazer no seu quotidiano aqueles que trabalham na administração da justiça no sentido de optimizar o relacionamento desta com o público utente?

Evidentemente, acresce ainda um outro plano em que será decisiva a atitude das gentes da Justiça, e que por isso há que ter bem presente em todos os momentos.

Trata-se, muito simplesmente, de implementar e desenvolver sistematicamente o que podemos chamar de boas práticas em matéria de atendimento e relacionamento com o público utente.

Com efeito, é no contacto directo com as pessoas concretas que exercem a sua actividade dentro dos organismos encarregados de administrar a Justiça que se forma a imagem transportada depois para o exterior por todos aqueles que por um ou outro motivo vivem directamente esses contactos, mesmo esporádicos, com a administração da Justiça.

E se é verdade que, como já se disse, estes nossos concidadãos são francamente minoritários quando comparados com aqueles que nunca tiveram qualquer contacto pessoal nessa área, e até se verifica que eles em regra têm imagem mais positiva da actividade judicial do que os primeiros, não é demais sublinhar a importância decisiva das suas percepções para a formação da imagem pública da Justiça – desde logo porque são eles os consumidores imediatos do produto dessa actividade, e depois porque através deles as suas experiências e percepções chegarão também a outros, a quem as transmitem, espalhando-se assim no conjunto do corpo social.

Deste modo, determinantes para a formação das tais percepções e imagens no público em causa serão as boas ou más práticas assumidas pelos profissionais dos serviços. É preciso que as gentes da Justiça actuem com a consciência de que para a pessoa que os contacta essa experiência pode ser a única, e que a sensação daí resultante será decisiva para a formação da sua própria ideia sobre o funcionamento da Justiça, ideia que depois transportará para o exterior.

A preocupação com o atendimento mostra-se crucial. O primeiro contacto é geralmente o mais marcante. A preocupação com a satisfação dos utentes deve ser comum a todos os prestadores de serviços, incluindo-se aqui necessariamente os serviços da administração da Justiça. Tal implica que a qualidade do seu próprio relacionamento com todos os que frequentam os tribunais deve ser objecto de atenção constante por parte de todos aqueles que neles trabalham, nomeadamente magistrados e funcionários, e manter-se em níveis elevados em todas as ocasiões e em todos os actos do seu dia a dia, desde os mais informais aos mais solenes.

Essa preocupação da qualidade do contacto com o público em geral e com todos os intervenientes processuais em particular tem que ser assumida na forma de estar de todos os profissionais do sector. Penso nos juízes, por natureza o rosto que administra a justiça, e penso em todos os outros. Quem quer ser respeitado tem que merecer esse respeito; e, como tenho lido e me soa acertado, nunca há uma segunda oportunidade para deixar uma primeira impressão.

Estamos ainda no campo da comunicação da Justiça, desta vez comunicação directa e pessoal. Mas a qualidade dessa comunicação reveste não menor importância para o desenvolvimento de uma atmosfera de confiança na Justiça do que aquela transmitida por intermédio dos meios de comunicação social.

(Texto escrito segundo a norma ortográfica anterior ao AO1990, por opção do autor)


Share This Post On
468x60.jpg