Ao olhar para os dados do RASI 2025 em comparação com o RASI 2024, o primeiro impulso é simples, quase instintivo, “há mais crime”, mas a leitura apressada é, muitas vezes, a mais enganadora, porque a estatística, quando isolada do contexto, constrói narrativas que nem sempre correspondem à realidade vivida, sendo precisamente nesse intervalo, entre o número e o significado, que importa pensar.
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda
Portugal continua, no essencial, a ser um país seguro, cuja a afirmação não é um exercício de retórica institucional, mas uma conclusão sustentada por um dado central, a criminalidade violenta e grave voltou a diminuir, sendo este indicador o mais sensível de insegurança social, aquele que verdadeiramente condiciona o quotidiano das pessoas, pelo que a sua descida, ainda que moderada, revela estabilidade estrutural, no entanto, a tranquilidade estatística convive com uma outra realidade, o aumento da criminalidade geral.
Aqui reside a aparente contradição. Como pode haver mais crime e, simultaneamente, menos violência? A resposta não está numa única variável, mas numa combinação de fatores que importa dissecar.
Em primeiro lugar, o crescimento da criminalidade geral está fortemente associado à proatividade policial e à intensificação da fiscalização, onde os crimes como a condução sob o efeito do álcool, a condução sem habilitação legal ou a desobediência registam aumentos significativos, mas estes aumentos dizem-nos tanto sobre o comportamento dos cidadãos quanto sobre a capacidade do Estado em detetar infrações, não se tratando, necessariamente, de uma sociedade mais transgressora, mas de um sistema mais vigilante.
Em segundo lugar, há uma mudança clara no perfil da criminalidade, onde as burlas e os crimes económico-financeiros assumem um protagonismo crescente, não sendo este fenómeno exclusivo de Portugal, acompanhando a transformação digital e a sofisticação dos mecanismos de fraude, porque a criminalidade desloca-se do espaço físico para o espaço virtual, não se manifestando a violência em agressão direta, mas em prejuízo económico e manipulação, porque ser um crime menos visível, mas não menos impactante.
Ainda assim, nem todos os sinais são tranquilizadores, merecendo o aumento do crime de violação uma reflexão profunda, não apenas pelo número em si, mas pelo que ele representa, podendo traduzir uma maior incidência, mas também maior denúncia, e essa distinção é fundamental, porque uma sociedade que denuncia mais não é necessariamente mais violenta, pode ser, paradoxalmente, mais consciente e menos tolerante, não podendo essa leitura servir de conforto automático, onde a persistência e o agravamento deste tipo de crime exigem respostas consistentes, tanto ao nível da prevenção como do apoio às vítimas.
Outro dado que merece atenção é o crescimento exponencial dos crimes associados ao auxílio à imigração ilegal, apontando este fenómeno para dinâmicas organizadas, muitas vezes transnacionais, que exploram fragilidades humanas e institucionais, não se tratando apenas de uma questão de segurança interna, mas de um desafio mais amplo, que cruza políticas migratórias, cooperação internacional e combate ao crime organizado.
Por outro lado, a descida da violência doméstica, ainda que moderada, introduz uma nota de cauteloso otimismo, por ser um crime historicamente subnotificado, pelo que qualquer variação deve ser interpretada com prudência, ainda assim, a tendência de diminuição, pelo terceiro ano consecutivo, pode refletir o impacto de políticas públicas, campanhas de sensibilização e maior rede de apoio, mas não ilude a sua persistência enquanto problema estrutural.
O retrato que emerge desta comparação entre 2024 e 2025 é, portanto, o de uma criminalidade em transformação, menos centrada na violência física, mais dispersa em formas difusas e, por vezes, invisíveis, ou seja, uma criminalidade que acompanha as mudanças sociais, tecnológicas e económicas.
Importa também considerar o papel da perceção pública, porque a sensação de insegurança nem sempre acompanha os dados reais, onde o aumento da criminalidade geral, amplificado por mediatização e discurso político, pode gerar uma perceção de deterioração que não corresponde, integralmente, aos indicadores mais críticos, e, no entanto, essa perceção é, em si mesma, um facto social relevante, porque influencia comportamentos, escolhas e confiança nas instituições.
A segurança não é apenas um dado estatístico, sendo também um sentimento coletivo, e esse sentimento constrói-se tanto com números como com narrativas, por isso, a responsabilidade na leitura e comunicação destes relatórios é acrescida.
O RASI 2025 não nos fala de um país mais perigoso, mas de um país diferente, um país onde o crime se adapta, se desloca e se reinventa, onde o Estado responde com mais capacidade de deteção, mas enfrenta desafios cada vez mais complexos e onde a violência diminui, mas outras formas de criminalidade ganham terreno.
No fundo, a questão não é apenas saber se há mais ou menos crime, a questão é compreender que crime temos, e, sobretudo, que respostas estamos dispostos a construir.
Nota: O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.



